Ajudado por Falcão, campeão do Parapan tenta inédito título mundial.

26/10/2015 05:47

Medalha de ouro no arremesso de peso no Parapan de Toronto, Thiago Paulino recebeu equipamento doado pelo craque no valor de R$ 3 mil, no início da carreira.

O ano era 2013. Pouco depois de virar atleta paralímpico e de ser contratado pelo Orlândia, clube famoso por sua equipe de futsal, o arremessador Thiago Paulino recebeu uma ajuda que iria marcar a sua vida. Com poucos recursos em seu início de carreira, o atleta paralímpico foi contactado por ninguém menos que o craque Falcão, na época estrela da equipe orlandina. O camisa 12 ficara sabendo que Thiago precisava comprar uma nova joelheira e uma meia específica para a prótese e decidiu, por conta própria, doar o material ao competidor amputado. A ajuda de cerca de R$ 3 mil ao então desconhecido transformou-se em gratidão eterna. 

Campeão do arremesso de peso e bronze no lançamento de disco F57 no Parapan de Toronto, Thiago hoje briga para ser o melhor do mundo na sua modalidade. O atleta orlandino está em Doha, no Catar, onde compete no Mundial Paralímpico de Atletismo. Sua primeira prova é o arremesso de peso na terça-feira. Depois, ele disputa o lançamento de disco, na sexta-feira, 30.

Minha relação com o Falcão começou em 2013, quando ele me presenteou com uma joelheira, que eu estava precisando para a minha prótese. Era um material relativamente caro e ele se propôs e me ajudar. Ele fez isso porque resolveu fazer, porque ele nem me conhecia e eu estava começando no esporte. Desde então construímos uma relação de amizade. Nos encontramos depois do título parapan-americano, ele me desejou boa sorte. Fui à casa dele em Sorocaba mostrar a medalha, e ele me recebeu com um café. Conversamos bastante, e ele disse que eu agora ganhei um torcedor. É um torcedor de peso, né (risos)? Um cara com vários Mundiais no currículo, e eu aqui agora disputando o meu primeiro Mundial. Quando cheguei a Doha, ele me mandou uma mensagem desejando sorte - contou Thiago, atualmente com 29 anos.

Falcão se lembra perfeitamente do dia em que conheceu Thiago. O camisa 12 estava na sua segunda temporada no Orlândia, quando sensibilizou-se com a história do atleta. Ao ter o primeiro contato com o arremessador, o craque do futsal teve certeza de que estava fazendo a coisa certa ao presenteá-lo com o material de treino.

Fiquei sabendo em Orlândia que tinha um atleta paralímpico com potencial, mas que precisava de uma ajuda. Perguntei se conheciam e o que precisava. Pedi pra ele ir em um treino para conhecê-lo e saber o que precisava. Me deparei com uma pessoa super humilde, com caráter, e que queria apenas cumprir seu sonho. Falei que daria o dinheiro, e ele preocupado com sua honestidade, me deu telefone e endereço de onde vendia, para que ele pegasse apenas o que interessava. Ali tive certeza que independente das medalhas, era uma pessoa fantástica que alcançaria seus sonhos. Hoje fico feliz de saber que o sonho concretizou e que ele lembrou disso - afirmou Falcão, em entrevista ao GloboEsporte.com, em agosto.

Thiago perdeu a perna esquerda em um acidente de moto no dia 18 de dezembro de 2010. Ele voltava de Ribeirão Preto (SP) quando um carro o fechou em uma rotatória de uma rodovia. O motorista causador do acidente fugiu. Na ocasião, o gigante de 1,90m e 116kg trabalhava como segurança na cidade vizinha. Meses após ter a perna amputada, Thiago descobriu o esporte paralímpico por recomendação do amigo Rodrigo Paixão, que atuava na área. Os resultados no atletismo foram aparecendo rapidamente. Recordista brasileiro em suas modalidades, atingiu o ápice da carreira este ano ao conquistar duas medalhas no Parapan de Toronto.

- Foi muito triste o acidente, mas não fiquei tão mal porque tive o apoio dos amigos. Naquela mesma semana, a minha esposa havia descoberto a gravidez da nossa única filha. Foi um misto muito grande de emoções. Quando entrei para o esporte não esperava crescer tão rápido. O sonho já estou vivendo que é chegar à seleção brasileira. Agora quero a medalha nesse Mundial e vaga para as Paralimpíadas - comentou o arremessador.

Como todo bom orlandino, Thiago tem a sua relação com o futsal . Na infância, alimentou o sonho de ser jogador para um dia vestir a mística camisa alvigrená. Ainda garoto, chegou a ser treinado por ninguém menos que o técnico Cidão em uma escolinha da cidade. A amizade com o treinador orlandino, inclusive, foi um dos caminhos que levaram Thiago a passar a fazer parte do Orlândia, expandido os investimentos do clube para além das quadras de futsal, a partir de 2013.

 Quando garoto cheguei a jogar futsal e fui treinado pelo Cidão. Foi o Cidão quem me apresentou à diretoria do Orlândia. Ele e o Carlão (Carlos Silva, diretor de esportes do clube) me ajudam muito. O Orlândia é um orgulho para a nossa região. Vou aos jogos da equipe sempre que posso e treino na própria cidade - lembrou.

Fã de pagode, Thiago não titubeia na hora de responder sobre quem é o seu ídolo maior no esporte.

- Gosto muito do Marco Aurélio Borges, que não está aqui neste Mundial porque não conseguiu índice, mas é uma referência no meu esporte. Mas, falando sobre ídolo, não tem como não dizer que o Falcão é quem eu mais admiro, por tudo o que ele é como pessoa e pelo que representa para o esporte - finalizou.