Alta do dólar afeta atletismo brasileiro rumo à Rio-2016.

03/12/2015 11:18

Uma das consequências da crise econômica brasileira, a desvalorização do real frente ao dólar já afeta a preparação de atletas brasileiros para as Olimpíadas do Rio, no ano que vem. No atletismo, o esporte mais nobre dos Jogos e no qual os melhores brasileiros precisam treinar e competir fora do país para garantir uma preparação em alto nível competitivo, os reflexos já são sentidos. Há pouco mais de dois meses, antes do Mundial de Pequim, o plano da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) era de enviar para campings (períodos de treinamento) no exterior, já a partir do fim deste ano, todos os atletas com índice olímpico — são hoje 46 atletas nesta condição.

A disparada do dólar e dos custos dos treinos e campeonatos no exterior fez o panorama mudar drasticamente. Nas últimas semanas, dirigentes da CBAt e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) têm se debruçado em planilhas na elaboração da execução orçamentária do ano que vem e, embora o trabalho ainda não esteja definido, a principal conclusão já é certa: a preparação do atletismo sofrerá um enorme ajuste, readequando-se à nova realidade. A maioria dos atletas só deve começar a treinar fora no ano que vem, e grande parte terá de se contentar em ficar no Brasil.

— Na época do Mundial (agosto), havia uma perspectiva, agora é outra. A subida do dólar afeta muito, nossa receita é em real. Ninguém sabe em quanto estará o dólar daqui a um mês, que dirá em janeiro ou nos primeiros meses de 2016. Não dá para atender a todos, temos de estabelecer prioridades, estamos conversando com os técnicos de cada atleta — resume José Antônio Martins Fernandes, o Toninho, presidente da CBAt. — Se a Fabiana (Murer, dona da segunda melhor marca mundial no salto com vara em 2015) pedir três campings internacionais, indo para tal e tal competição, tenho de atender, é prioridade máxima.

RECEITAS DE R$ 26,3 MILHÕES EM 2016

Os níveis de prioridade já estão traçados pela entidade que dirige o atletismo brasileiro, e resta saber o que poderá ser atendido. No primeiro grupo, que ganhou internamente o nome de “Radar 1” estão os atletas mais bem ranqueados mundialmente ou fizeram finais no Mundial de Pequim e que receberão prioridade máxima — a rigor, são os que, com otimismo, têm alguma chance de conquistar uma medalha no Engenhão. Além de Fabiana Murer, compõem o grupo Thiago Braz (4º no ranking do salto com vara, com a 6ª marca do ano), Augusto Dutra (finalista no salto com vara em Pequim), Caio Bonfim e Érica de Sena (ambos 6º colocados na marcha atlética no Mundial) e o revezamento 4x100m feminino.

O “Radar 2” inclui atletas que estão entre os 20 do mundo nas suas modalidades, como Andressa de Morais, no arremesso de disco, Darlan Romani, no arremesso de peso e o 4x100m masculino. O “Radar 3” é formado pelos que estão no top 30 ou 40 nos rankings. Numa visão mais ampla, o objetivo da CBAt é evitar, no Rio, o fiasco da participação brasileira no Mundial de Pequim, quando, dos mais de 40 representantes nacionais, apenas dois (Fabiana Murer e João Vítor Oliveira, nos 110m com barreiras) conseguiram igualar ou superar a melhor marca pessoal.

— Vamos entregar a cada técnico dos atletas com índice uma planilha que nos será devolvida com as metas estipuladas por eles mesmos para cada competição: há o Mundial Indoor em março, nos EUA, o Ibero-Americano, em maio, no Engenhão, o Troféu Brasil, em julho, entre outras, e as Olimpíadas. Cada atleta vai estipular uma marca ou tempo para ser atingido em cada competição e nos Jogos. E vamos acompanhando quem estará conseguindo cumprir as metas parciais. Temos de chegar no auge nas Olimpíadas, direcionar o trabalho para isso — explica o superintendente de alto rendimento da CBAt, Antônio Carlos Gomes.

A confederação de atletismo tem basicamente três fontes de receita: o patrocínio da Caixa (R$ 16 milhões/ano), o repasse do programa Bolsa-Medalha, do governo federal (R$ 6 milhões/ano) e a verba vinda das loterias, como manda a Lei Piva (R$ 4,3 milhões em 2016). Deste total, a diretoria afirma investir 60% diretamente em atividades de pista, como treinos, participação em competições e pagamentos a atletas e membros da comissão técnica. O restante é consumido em despesas administrativas, repasses a federações estaduais e outros compromissos.

— O contrato com a Caixa vai entrar no seu quarto ano, com o mesmo valor de R$ 16 milhões. Há mais de 20 exigências que temos de cumprir , como organizar competições regionais, corridas de rua, cursos de arbitragem, programas para jovens... Para investir nos nossos atletas de ponta, a maior parte do dinheiro vem do Bolsa-Medalha — justifica o presidente da CBAt.

‘AVALANCHE DE PEDIDOS’

As próximas semanas serão decisivas para a definição de quem receberá apoio para se preparar no exterior e quem será afetado pelo corte de investimento decorrente da desvalorização do real.

— Atualmente está uma avalanche de pedidos dos atletas para a confederação. É preciso dividir os custos com os clubes também, a CBAt é o polimento final — acrescenta Toninho.

Do outro lado, fica a apreensão de quem sabe que os treinos apenas no Brasil, sem competir com os melhores do mundo, tiram dos atletas a possibilidade de se aproximar da elite de cada modalidade. Como o martelo ainda não foi batido sobre quem será sacrificado, as reclamações são evitadas.

Treinador de Hederson Estefani, que tem índice olímpico nos 400m mas não está entre os 40 primeiros do ranking em 2015, Sanderlei Parrela resume a importância de se preparar em alto nível.

— O camping lá fora é importante não apenas pelas melhores condições de treino. Você tem também de competir contra os caras grandes, estar acostumado com isso. E essas provas só acontecem lá fora. Estamos conversando com a CBAt e o COB e aguardando a definição — diz Sanderlei.