Clima de ''gincana'' e disputa de tirar fôlego: obstáculos hipnotizam torcida

26/08/2015 05:58

Prova exige muito esforço físico dos competidores e anima público no Mundial.


São 3.000m metros de uma exigência física gigantesca. É preciso correr rápido, saltar barreiras, manter-se equilibrado ao passar sobre um fosso d’água e evitar esbarrar nos adversários, já que não há divisão de raias. Eventualmente ocorrem acidentes cinematográficos, como o da panamenha Roland Bell, mas a regra geral é ver os atletas mais sorridentes do que refletindo a exaustão após a linha de chegada. Com um clima de “gincana” de férias para os leigos, os 3.000m com obstáculos são uma das provas mais emocionantes do programa do atletismo, produzindo ainda belíssimas imagens para fotógrafos e transmissões de TV e um entretenimento ímpar para o público.

 

Os 3.000m com obstáculos ainda não estão presentes em todos os meetings de atletismo. Assim, é frequente que seus principais nomes também compitam em corridas comuns de meio fundo e longa distância, geralmente os 1.500m e os 5.000m. Os treinamentos são pesados. No feminino, as atletas costumam correr de 80km a 100km por semana, além de praticarem a ultrapassagem de barreiras e o salto pelo fosso.

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Na prova, é preciso usar umaSAPATILHA especial, com sistema de drenagem que facilite o escoamento da água após a passagem pelo tanque. Ninguém usa meias, diferentemente do que ocorre nos demais eventos de pista. Dada a largada, o público se empolga rapidamente. Como os atletas correm juntos, sem divisão das raias, é possível comparar mais facilmente o desempenho de todos. Os suspiros e exclamações vindos das arquibancadas são constantes, e os atletas seguem o embalo. 

Nesta segunda-feira, dois episódios bem distintos ilustraram essas emoções. Nas eliminatórias femininas, a panamenha Rolanda Bell errou e caiu de cara no fosso. Sem nenhuma lesão grave, a atleta engoliu o orgulho ferido e reuniu forças para concluir a prova na última colocação, mais de um minuto após a última classificada à final. 

Na disputa de medalhas masculina, o Quênia manteve sua hegemonia e dominou u o pódio. Com mais uma estratégia de equipe, Ezekiel Komboi sagrou-se tetracampeão mundial com 8m11s28. Conseslus Kiputro e Brimin Kiprop Kipruto ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente. O país teve ainda Jairus Kipchoge Birech na quarta posição.

Nossa prova exige um misto de força dos 5km e a velocidade dos 1.500m. É preciso ser forte, rápida... Tem a multidão gritando, as atletas muito próximas. Tem que manter muito o foco para não errar na água ou nas barreiras, é preciso estar muito em forma. É o evento mais divertido do atletismo. É divertido para os corredores, para os espectadores, é incrível. É divertido saltar sobre a água e ver o que vai acontecer, há uma mágica. Você não pode ter medo, e por isso é tão excitante. Geramos momentos lindos, quedas espetaculares e recuperações. É emocionante – disse a americana Stephanie Garcia, classificada à final do Mundial de Pequim.

Madeline Heiner não teve a mesma sorte. Por uma posição, ficou fora da disputa por medalhas na China. Sua participação no Ninho do Pássaro, no entanto, não está encerrada. Ela disputará os 5.000m. Apesar de falar com paixão da prova de obstáculos, ela sente que ainda existe um pouco de resistência em relação aos demais programas do evento. 

- Algumas pessoas talvez não entendam o evento e não o levam tão a sério como outros. Possivelmente esta é uma das razões pelas quais eu corro outros eventos também. Não necessariamente só por isso, mas também porque não há esta competição em todos os campeonatos.O Brasil não tem representantes nem no feminino nem no masculino em Pequim. Apesar de manter-se no pódio dos Jogos Pan-Americanos na última década (Sabine heitling foi ouro no Rio e bronze em Guadalajara, e Hudson de Souza foi prata em 2011), o país enfrenta uma escassez de talentos. Os últimos grandes resultados a nível internacional pertenceram a Clodoaldo Lopes do Carmo, que foi finalista dos Jogos de Barcelona em 1992, e a Wagner do Prado, ouro no Pan de Mar del Plata, com 8m14s41, recorde brasileiro vigente até hoje.

Para voltar a figurar nas grandes competições, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) aposta em uma boa transição de Juliana dos Santos, ouro nos 5.000m no Pan de Toronto.