COB evita termo "blindagem" em palestra e Bernardinho "acorda" atletas

18/03/2015 20:26

Entidade promove novo encontro entre técnicos e atletas, discute como lidar com família e imprensa durante os Jogos, e encerra agenda com fala de treinador.

 
O Comitê Olímpico do Brasil promoveu nesta terça-feira, em sua sede no Rio, o terceiro de sete encontros previstos até os Jogos Olímpicos de 2016 com treinadores, coordenadores e atletas.Bernardinho, Rubén Magnano, a bicampeã olímpica do vôlei Fabi e a campeã mundial de handebol Duda Amorim, entre outros, contaram suas experiências para uma seleta plateia. Nela estavam nomes que serão fundamentais para o Brasil alcançar o sonhado top 10 daqui a pouco mais de 500 dias. Do iatista bicampeão olímpico Robert Scheidt, até a ginasta Flávia Saraiva, de 15 anos, passando por treinadores como José Roberto Guimarães e o espanhol da canoagem, Jesús Morlán, e coordenadores Torben Grael, da vela, e Rosiclea Campos e Ney Wilson, do judô.

A reunião é chamada de "processo de disseminação de informação" pelo gerente-geral de performance esportiva do COB, Jorge Bichara. Uma aproximação de profissionais considerada necessária, na qual se discutem relacionamentos dos atletas com familiares e parceiros afetivos, com a imprensa e com patrocinadores, além da preparação mental e do comportamento. O que pode sugerir "blindagem" ou "cartilha" é descartado pelo dirigente. Não chamaria de "blindagem", nem "cartilha" e "normas". Vamos usar palavras como "informação" e "comprometimento". O assédio da imprensa vai ser maior devido ao fato dos Jogos serem no Rio. Vai ser difícil se concentrar. A gente tem que estar atento aos pontos de risco. Fazer ações para controlar ou neutralizar. Mas ninguém está aqui obrigado. Está de livre e espontânea paixão. É um trabalho árduo. O grande ponto é transformar o risco em uma oportunidade. Ver o lado positivo disso - disse Bichara. Para a campeã mundial Rafaela Silva, a presença da imprensa pode incomodar em alguns momentos: 


- Às vezes a gente está em um treinamento específico para uma adversária e a câmera está ali. A gente não se sente muito à vontade. Mas eu acho que lido bem com a pressão de  ter o resultado porque você já foi campeã mundial ou olímpico - disse a judoca.   

Colega de tatame de Rafaela, Mayra Aguiar confia nos cuidados reservados para os atletas brasileiros. Ela também acredita que o judô, apontado como esporte carro-chefe do Brasil na busca por medalhas em 2016, pode muito bem dividir a pressão entre os atletas: 

- Por ser dentro do Brasil a pressão vai ser muito grande, mas eu estou bastante confiante nessa blindagem. O bom é que a gente vai poder dividir um pouco da pressão porque o nosso time vai ter bastante gente boa, com medalhas no mundial e olímpicas. Então, a divisão da pressão está grande também. 

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SASAKI VOLTA AO FOCO APÓS PALESTRA



O encontro foi encerrado com uma palestra de Bernardinho. O treinador citou os perigos do individualismo, dando o exemplo de um jogador que pode se empolgar com seu desempenho e ter atitudes como apontar para o seu nome nas costas na hora de comemorar. A solução: tirá-lo de quadra na hora, para baixar a bola. Na opinião do treinador, os encontros estabelecem uma nova forma de lidar com o esporte no país. 

- Não é só passar experiência, mas trocar. Tem treinadores aqui super vitoriosos, as reuniões estão sendo riquíssimas. É uma experiência nova e das mais interessantes da minha carreira de treinador. Queremos que essa seja uma forma de trabalho do esporte brasileiro. Todo mundo está pensando, refletindo e mexendo com a cabeça de todos. Poder dar uma estimulada em alguém é fantástico. Alguns atletas como o campeão mundial de canoagem Isaquias Queiroz, a judoca medalha de ouro Sarah Menezes e Sérgio Sasaki disseram que, de fato, se sentiram "acordados" pelas palavras de Bernardinho. O ginasta sentia uma perda de foco após operar o joelho direito há dois meses.  

- Ver nossos ídolos falando dá muito mais motivação para voltar aos treinos. Eu estou voltando de lesão faz dois meses, mas é uma lesão complicada. Recuperar o cruzado não é normal. Volto com outro ânimo. Uma lesão deixa o atleta fora do foco e essa palestra me fez voltar ao foco. Não posso perder um dia de fisioterapia, de treino. Muitas vezes você acaba indo para caminhos diferentes, e pro esporte não é legal. É emocionante ouvir o Bernardinho. Faz você acreditar no seu sonho - disse Sasaki.  Cria de um esporte sem ícones no Brasil, o tiro com arco, Marcus Vinícius D´Almeida gostou do contato com medalhistas olímpicos. Na voz de Bernardinho, máximas como "é preciso se preparar ao máximo para vencer" ganham peso. Aos 18 anos e na beira de sua primeira Olimpíada, com chances reais de pódio, ele espera não ter "quebrar a cara" para aprender. Um caminho natural para o sucesso, como acredita Fabiane Murer.  

- A gente tenta dar conselho para os mais novos, contar as experiências. Mas muitas coisas os atletas mais novos têm que passar para crescer, o que foi falado nesta palestra. Às vezes têm que quebrar a cara para crescer. Eu passei muito disso. Estou há 18 anos no salto com vara. Vai ser importante para os atletas chegarem mais preparados para o que eles vão encontrar na Olimpíada - disse a saltadora.