Com "mergulho", João Vitor dá adeus nas semis com melhor marca da vida

27/08/2015 17:07

Menos de um ano após quase desistir do esporte, vender tudo que tinha para morar nos EUA e contar com "vaquinha" no whatsapp, barreirista é 18º colocado no Mundial.

Há um ano, João Vitor de Oliveira não imaginava que poderia alcançar uma semifinal do Mundial de Atletismo. Sem conseguir boas marcas, o atleta dos 110m com barreiras pensou em desistir do esporte. Por incentivo de um amigo, decidiu arriscar, vendeu tudo o que tinha para ir treinar nos Estados Unidos. Sob o comando de Zequinha Barbosa, medalhista mundial em provas de meio fundo na década de 80, viu a aposta de transformar rapidamente em resultado. Em apenas dez meses de treino, conquistou o Troféu Brasil, alcançou índices para o Mundial de Pequim e para as Olimpíadas. Nesta quinta-feira, com 13s45 e direito a “mergulho” na linha de chegada, despediu-se do Ninho do Pássaro nas semifinais com o melhor tempo daCARREIRA.

Com o esforço extra nos metros finais, João acabou se desequilibrando e rolou na pista. Machucou a costela e deixou o local com dor. A adrenalina pelo feito, no entanto, o manteve vibrante e orgulhoso.

Foi exatamente tudo o que eu esperava. Eu cheguei aqui com 13s47 e fiz o índice para o Mundial Indoor. Acho que esse resultado mostra o meu esforço e a competência do meu treinador. Cheguei aqui em 40º, agora sou o 18º (no geral). O mergulhoRESUME tudo isso, é o último suspiro, a última tentativa, a prova de que eu acredito até o final. Se eu achasse que não ia passar, poderia não fazer o esforço. Mas isso não é da minha personalidade, do meu espírito atlético. Eu sempre me jogo. Eu seria medíocre se não desse 150% de mim. 100% todo mundo dá.

João estava há cerca de sete anos vivendo como atleta profissional. Mas, nas últimas três destas temporadas, não havia alcançado o progresso que imaginava. Reuniu a família e anunciou que abandonaria o sonho. Foi um amigo que o fez mudar de ideia. O lembrou que em 2009 a fundação da qual Zequinha é diretor esportivo o havia procurado com a proposta para treinar nos EUA. Desta vez, o atleta fez o caminho inverso pedindo uma oportunidade.

Sem patrocinador, o barreirista foi ao extremo. Vendeu o carro, o computador, móveis e até roupas para levantar dinheiro. Zequinha abriu a própria casa em San Diego para que o paulista pudesse economizar ao máximo. E assim iniciaram oTRABALHO em setembro de 2014.

- Eu precisava me motivar. Peguei tudo o que eu tinha, me desfiz, troquei em dólar e fui dormir no chão da casa do Zequinha. Estava determinado a fazer tudo o que estivesse a meu alcance para tentar mais uma vez. E foi o que aconteceu. Em 10 meses de treinamento fui campeão do Troféu Brasil, fui à seleção no sul-americano, fiz os índices e estou aqui conseguindo mostrar meuTRABALHO. Em 12 meses minha vida mudou. Hoje sou o cara mais feliz do mundo, não só por estar aqui, mas por saber que todo nosso esforço está dando certo.

Para Zequinha, bronze no Mundial de Roma 1987 e prata no Mundial de Tóquio 1991 nos 800m, a parceria também representava um grande desafio. Radicado nos EUA, ele dava aula de Educação Física há seis anos no Ensino Médio de uma escola. Jamais havia treinado um atleta de elite e conhecia muito superficialmente a prova com barreiras.

- O que a gente fez em 10 meses é coisa de quem quer muito que logo dê certo. Juntamos a fome com a vontade de comer. Ele é um garoto muito dedicado e teve que ter um amadurecimento rápido no ano rendimento. Tem muita determinação, que fez com que ele conseguisse superar saudade da família, a barreira da língua. Nunca o tinha visto correr, só o conhecia por foto. Estudei por meses para conhecer melhor as barreiras, e iniciamos uma troca. Ele ia me ensinando um pouco, eu passava o melhor condicionamento para ele, e assim fomos crescendo juntos. Hoje sou amigo, pai, cozinheiro, massagista, psicólogo, motorista, nutricionista, ajudo financeiramente dentro do que posso – disse o ex-atleta e hoje treinado

Os resultados foram aparecendo, mas João precisava competir em alto nível para buscar índices para os principais campeonatos de 2015 e 2016: o Mundial de Pequim e as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Com suas reservas financeiras no fim, contou mais uma vez com o apoio de um amigo. O triatleta Ricardo Hirsh criou um grupo no whatsapp chamado “Ajude um futuro atleta olímpico”. Em três horas, conseguiu arrecadar cerca de 5 mil reais com a ajuda de colaboradores como os pilotos da Stock Car Daniel e Tuka Rocha. Com a verba, comprou uma passagem para a República Tcheca. Competiu no meeting da Tabor e correu abaixo do índice estabelecido pala Federação Internacional de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês).

Em Pequim como um dos 58 integrantes da delegação do Brasil, passou pela fase classificatória com 13s57 e classificou-se por tempo. Nas semifinais, voltou a terminar em quinto lugar na bateria, mas com uma marca sete centésimos mais baixa. Era o melhor de sua vida, o suficiente para fazê-lo bater no peito satisfeito.

- Meu treinador combinou comigo do seguinte: “Você vai começar janeiro tomando pau de todo mundo. Em fevereiro, também. Mas, quando chegar no Mundial, vai ser igual empurrar caminhão na descida. Vai ficar fácil”. A minha facilidade ainda não é do nível do David Oliveir, do Aries Merritt, mas um tem 31, outro 29 anos. Eu tenho 23. Tenho plena convicção que vou chegar no nível desses caras, e não vai demorar muito não – disse João.

Mãe, eu quero ser o Claudinei Quirino"
João tinha apenas oito anos quando viu pela televisão o resultado histórico no revezamento 4x100m masculino. A prata conquistada pelo quarteto brasileiro em Sydney teve para o menino um herói: Claudinei Quirino. Na escola, o paulista tinha um coleguinha com o mesmo nome do ídolo. Queria sempre vencê-lo, projetando um duelo imaginário.

- A prata foi emocionante, foi a primeira vez em que ouvi falar de atletismo na vida. Falei para minha mãe que eu queria ser o Claudinei. Eu tinha um amigo na minha sala que também se chamava Claudinei, e eu sempre queria ganhar dele porque eu falava que estava ganhando do Claudinei Quirino. Mas eu nunca o tinha conhecido até este ano. Falei com ele pela primeira vez, uma conversa de 30 segundos. Ele falou que tinha torcido por mim e gostou do resultado. Falei que não sabia quanto aquilo significava para mim. Dei um abraço nele, foi meu primeiro ídolo. Depois veio o Jadel, que foi o cara que mudou a minha vida, que me abriu as portas.

O Jadel a que João Vitor se refere é o triplista Jadel Gregório, que mantinha um projeto em Marília, no interior de São Paulo. Foi nele, em 2008, que o jovem atleta começou no esporte. Experimentou várias modalidades até se apaixonar pela prova que combina velocidade e saltos. Desde que começou a trabalhar com Zequinha, o foco era para 2020, mas a dupla sonha com um retorno já em 2016.

- O João foi longe até demais pelas condições que tem. Provou para muita gente que dinheiro não compra resultado, porque é o único da equipe brasileira que não recebe bolsa, nada disso. Mas fez índice e tem condições. Tem talento muito grande, é um diamante que precisa ser lapidado para trazer mais alegrias para o Brasil, até mais do que eu trouxe – disse Zequinha.

Rosângela cai nas semis
Também na manhã desta quinta-feira (noite na China), Rosângela Santos correu pela semifinal dos 200m feminino. Na última bateria da prova, ela não conseguiu imprimir o ritmo suficiente e terminou na quarta colocação, com o tempo de 22s87. No geral, obteve a 13ª melhor marca na semifinal. A velocista mais rápida foi Dina Asher-Smith, da Grã-Bretanha, com 22s12.