Corrupção, nepotismo e relação com Putin: novo relatório expõe mais a IAAF

15/01/2016 05:37

Documento de 89 páginas afirma que gestão fraudulenta é maior do que foi divulgado.

Corrupção generalizada, nepotismo, extorsões e uma amizade entre o ex-presidente da IAAF (Federação Internacional de Atletismo), Lamine Diack, e o presidente russo, Vladimir Putin. Estes são alguns dos principais tópicos destrinchados nas 89 páginas do relatório divulgado nesta quinta-feira em Munique por uma comissão independente contratada pela Agência Mundial Antidoping (Wada) para investigar o escândalo de corrupção do atletismo russo. De acordo com o documento, a gestão fraudulenta comandada por Diack era tão extensa que não poderia não ter chegado ao conhecimento de membros da alta cúpula da entidade. 

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Diack é citado como responsável por organizar e permitir o pleno funcionamento de um esquema de conspiração e corrupção, formando um círculo que funcionava como uma estrutura informal e ilegítima de governança na IAAF. O dirigente senegalês teria conhecimento pessoalmente de processos fraudulentos e da extorsão de atletas flagrados em testes antidoping.

As informações da comissão independente indicam muito claramente que a corrupção na federação emanava muito do topo, de Lamine Diack - disse Richard McClaren, membro da comissão independente da Wada. 

A agência de notícias AP noticiou em primeira mão que o relatório contava com a citação de um episódio em que Diack teria exposto a necessidade de consultar Putin sobre a punição de nove atletas russos às vésperas do Mundial de Moscou 2013. Em conversa com o advogado Hugh Roberts, desligado da IAAF em 2014, o senegalês teria se dito em “uma posição difícil”, que só poderia ser resolvida através de sua amizade com o presidente russo. Nenhum destes atletas competiu no Mundial de Moscou, mas os casos também não foram investigados a fundo pela IAAF. 

O relatório da comissão da Wada, presidida pelo ex-presidente da entidade, Dick Pound, cita ainda como Papa Massata Diack, ex-conselheiro da IAAF e filho mais velho de Diack, além de um advogado e do ex-chefe do setor responsável pelo antidoping da entidade foram responsáveis por acobertar o doping e extorquir a maratonista Lillya Shubokhova.

Papa Massata, que teve um alerta de procurado emitido pela Interpol nesta quinta-feira, também é citado em outros momentos do documento. Em um deles, a comissão da Wada critica a ausência de regras e políticas no que diz respeito à contratação de familiares no alto escalão da IAAF - além de Papa, outro filho de Lamine, Khalil Diack, trabalhava em cargo de confiança na entidade. 

Outro episódio mostra a estreita relação entre a cúpula da IAAF e as autoridades russas. Durante um encontro em 2012 em um hotel de Moscou, Papa se reuniu com um conselheiro de uma rede de televisão russa, Habib Cissé e o chefe da Federação de Atletismo Russa à época, Valentin Balakhnichev (que também ocupava o cargo de tesoureiro honorário da IAAF), discutiram a meta estipulada pela TV russa para obter os direitos de transmissão do Mundial de Moscou, passando-a de US$ 6 para US$ 25 milhões (mais de R$ 100 milhões). Um banco russo deu o suporte ao acerto. Entre as recomendações de Dick Pound está a investigação desta negociação.

O relatório enfatiza ainda o que chama de “governança completamente imprópria” para permitir a supervisão de casos suspeitos de doping, tendo em vista que vários deles eram supervisionados pelo advogado pessoal de Lamine Diack, Habib Cissé – preso juntamente com o senegalês em operação em Paris em novembro. A comissão afirma que a base de dados mantida pela IAAF não torna possível que sanções aplicadas a atletas sejam bem sucedidas. 

- Ele (Diack) inseriu seu conselheiro legal pessoal no departamento médico e de antidoping da IAAF em novembro de 2011, com os Jogos de Londres e o Mundial de 2013 pela frente. Ele colocou Cissé à frente dos casos de passaporte biológico dos russos. Naquele momento os técnicos russos não tinham um bom entendimento do passaporte biológico. Eles sabiam como manipular ou destruir amostras de urina para não produzir resultados positivos, mas não sabiam como fazer com o passaporte biológico. A inserção de Cissé e suas ações tinham a intenção deliberada de atingir os mesmos resultados de manipulação de resultados dos russos com o passaporte biológico como havia sido feito antes com a urina - disse McClaren.

Em relação ao retorno da Rússia às competições internacionais de elite, Dick Pound se recusou a estabelecer um prazo para revisão desta decisão. Se o Mundial Indoor de Portland ou as Olimpíadas do Rio de Janeiro fossem hoje, os russos não poderiam competir nas provas de atletismo.

Contradição? Dick Pound defende permanência de Coe

Em entrevista coletiva iniciada logo após a divulgação oficial do documento, Dick Pound afirmou que o escândalo russo era muito maior do que se tomou conhecimento e pediu que a IAAF aceitasse suas responsabilidades. Apesar de o documento divulgado nesta quinta afirmar que membros da cúpula da IAAF não tinham como não ter ciência da corrupção na entidade, Pound defendeu Sebastian Coe, e eleito presidente da entidade em agosto de 2015.

Perguntado se esta postura não seria contraditória, visto que Coe foi vice-presidente da IAAF por anos e foi extremamente elogiado por Diack ao assumir o cargo máximo, Pound pôs panos quentes.

- Não quero colocar as falhas de um conselho inteiro nos pés de um indivíduo. Eu não acho que seria justo. Você aprende com a experiência – disse.