Da favela ao Catar, carioca se torna o 2º mais rápido do mundo e mira 2016.

24/10/2015 15:17

Após a conquista nos 100m T11 (cego total) no Mundial Paralímpico de Atletismo, em Doha, Felipe Gomes desafia lesões em busca do pódio nos 400m e no revezamento.

Felipe Gomes é um cego que jamais se perde em tiroteio. Morador da comunidade da Maré, considerada uma das mais violentas do Rio de Janeiro, o carioca que se tornou o segundo homem mais rápido do mundo nos 100m da classe T11 (cego total) encontrou no esporte uma nova perspectiva de futuro. Forte candidato a representar o Brasil nas Paralimpíadas de 2016, ele é um ídolo local e nunca se viu em perigo em casa. Sem ver o pai desde os 11 anos e criado pela mãe, Denise, empregada doméstica, o corredor pôde não só investir na carreira, mas também oferecer uma vida confortável aos filhos e à família graças às suas conquistas no atletismo. 

- Com os patrocínios, hoje eu vivo do esporte. Posso investir não só na minha preparação, seja com tênis, equipamento ou fisioterapia, equipamento, mas também na educação em casa. Minha mãe sempre trabalhou para me dar a melhor condição e tenho muito a agradecer a ela. Estou retribuindo sendo um bom filho e dando uma vida melhor para a família. Já propus à minha mãe morar fora da favela, mas ela não quis, acha que aquilo lá é a melhor coisa do mundo. E eu estou por perto. O pessoal me conhece do jornalzinho da Maré. Violência para mim não tem. Bandido e outras pessoas me cumprimentam. Agora, em comunidade, quando tem confronto entre bandido e polícia, é melhor se recolher. Mas eu não costumo ficar na rua, fico muito em casa. Nunca tive problema de tiroteio na rua. Até costumo brincar que quando eu estou na favela não tem tiro, não tem nada. As pessoas me respeitam em casa - disse Felipe, pai de Daniel e Ana Clara. 

 

Com três Mundiais, duas Paralimpíadas e três Jogos Parapan-Americanos na bagagem, o medalhista de prata no Mundial Paralímpico de Atletismo em Doha, no Catar, só foi superado pelo americano David Brown. O brasileiro Lucas Prado, outro finalista nos 100m, sofreu uma lesão na perna direita e abandonou a prova. A preparação do carioca foi árdua e marcada por lesões. Mas as dores musculares, seja de estiramentos ou contraturas, nunca foram um obstáculo para que ele voasse nas pistas. A grande virada na carreira foi após Londres 2012.

 

 Há mais de um ano, estou me preparando para este Mundial, treinando à base de muita dor. Mas o que deu um gás foram as medalhas no Parapan-Americano, duas de ouro e uma de prata. Aí foi só concluir o trabalho e fazer o melhor possível aqui. Minha carreira foi marcada por lesões. Me machuquei na preparação para Pequim 2008 em Macau. Mas, em 2012, fui campeão nos 200m. Acho que foi a virada. Em 2013, fui prata no Mundial, depois veio Toronto... Por mais que este ano tenha sido de muitas dores, acredito que estou bem melhor do que tempos atrás - contou Felipe, aproveitando para elogiar o guia, Jorge Augusto Pereira Borges:

- Estou com um guia muito bom, que me dá toda a segurança no dia a dia e dentro da pista para executar da melhor forma o meu trabalho. Em 2016, espero estar competindo em casa, fazendo o melhor para o Brasil - acrescentou. 

No que depender da opinião de Jorge Augusto, a vaga está assegurada. Segundo ele, a conquista em Doha nesta sexta-feira foi apenas um aperitivo do que está por vir.

 

No Parapan de Toronto, último grande compromisso antes da ida ao Oriente Médio, Felipe conquistou o ouro nos 400m e no revezamento 4x100 e a prata nos 200m. Resultados que comprovam que ele está no caminho certo.

- Estou muito feliz com o resultado. Agora vou tirar umas férias para recuperar a musculatura e estar bem para 2016. Quero botar minha perna para o alto, relaxar, viajar, curtir uma praia... Tem mais de um ano que estamos treinando sem parar. Mereço esse descanso (risos). O resultado em Doha foi muito bom. As dores pioraram bastante hoje e eu não sabia em que posição chegaria. Mas, como eu estava na final, só me restava lutar. Era uma oportunidade única. Fui com tudo para cima e fiquei muito feliz com a medalha de prata - revelou o atleta, quer resolveu experimentar o atletismo paralímpico depois de uma conversa com um amigo pelos corredores do Instituto Benjamin Constant, tradicional instituição de ensino para deficientes visuais.  

Neste sábado, o Brasil continua a busca por medalhas no Catar. O principal destaque to terceiro dia de disputas será a estreia de Alan Fonteles, que iniciará a defesa pelo título mundial nos 200m T44. Maior medalhista brasileira em Mundiais, Terezinha Guilhermina luta para manter a hegemonia nos 200m T11 (cego total), ao lado de Jhulia Karol e Thalita Simplício. A competição vai até o dia 31 de outubro, com a presença de 1.315 atletas, incluindo os guias, de 88 países. 

BRASILEIROS EM DOHA NESTE SÁBADO

11h - Jhulia Karol, Terezinha Guilhermina e Thalita Simplício – eliminatórias dos 200m (T11) 
11h03 - Claudiney Batista – final do lançamento de dardo (F57)
12h - Alice Corrêa – eliminatórias dos 200m (T12) 
13h - Izabela Campos – final do lançamento de disco (F11)
13h25 - Gustavo Araújo – final dos 100m (T13)
14h20 - Indayana Couto – final dos 400m (T13) 
15h30 - Jonathan Santos – final do arremesso de peso (F41) 
15h25 - Alan Fonteles – semifinal dos 200m (T44) 
16h49 - Yohansson Nascimento – eliminatórias dos 200m (T47)
 


- O Felipe está sentindo dores desde abril. Ele trata, recupera um pouco, mas depois as dores voltam. E, ainda assim, ele conseguiu bons resultados no Parapan e no Mundial, que está só  para a gente só está começando. Ainda temos os 400m e o revezamento. Pretendemos estar em todas as finais, com ou sem dor. Se as Olimpíadas passam por Doha, acho que a gente já está dando o nosso recado. Queremos mostrar que merecemos estar em 2016. Independentemente do tempo, o que vale é a colocação: o segundo melhor do mundo.