De "coach" a guia: aos 52, Joaquim Cruz volta a competir em Toronto

08/08/2015 12:57

Técnico paralímpico dos Estados Unidos, campeão olímpico será guia de Ivonne Mosquera-Schimidt, mas evita pensar em correr também nas Paralimpíadas do Rio.

Joaquim Cruz acostumou-se a fazer história bem novo. Em 1984, em Los Angeles, tornou-se o primeiro – e até hoje único – brasileiro a sagrar-se campeão olímpico em uma prova de pista. O ouro nos 800m e a prata em Seul, conquistada quatro anos depois, o alçaram a um patamar respeitável internacionalmente. Há uma década trabalhando como consultor do Comitê Olímpico Americano (Usoc) na divisão de paradesporto, o ex-atleta vai encarar um novo desafio em Toronto. Aos 52 anos, será guia da colombiana naturalizada americana Ivonne Mosquera-Schimidt em duas provas de meio fundo nos Jogos Parapan-Americanos.

- Dois guias com quem ela trabalha, tiveram problema com passaportes. Não chegaram em tempo de mandar as inscrições para o Canadá. Como não tínhamos outro guia para as provas de meio-fundo, a única pessoa que poderia ajudar era eu. Se você conhece a história dele, quer trabalhar com ela, quer fazer parte. Sempre falo para meus atletas que os sonhos deles são meus sonhos. A diferença é que o guia tem que participar direto, é um atleta que faz o aquecimento, os trabalhos, as corridas. O treinador é aquele gordinho que fica ali só dando ordem e marcando o tempo, que seria o meu trabalho - disse Joaquim.

Joaquim será o atleta-guia mais velho em ação no evento canadense. Pelo programa do evento, os dois correrão os 1.500m da classe T11 e os 800m da classe T12, para deficientes visuais. Ivonne perdeu a visão com dois anos devido a um câncer da retina (retinoblastoma) - ela superou mais dois tumores malignos.

 

Apesar da idade, o campeão olímpico exibe boa forma física - nunca deixou de correr para poder comer sem remorso, como costuma afirmar. Em dois meses de preparação mais intensa já visando uma performance mais competitiva, perdeu pouco mais de cinco quilos com o aumento da carga de treinos. Mas os torcedores, brasileiros ou americanos, não devem se animar com a possibilidade de vê-lo em ação nas Paralimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

- Espero não ter problemas com guia. Vamos ter em mento que tenho 52 anos, e terei 53 anos em 2016. Em dois meses, eu me machuquei duas vezes. Não quero prolongar essa ideia porque sou muito competitivo. Espero que tenha uma pessoa bem mais jovem que possa acompanhar a Ivonne. Meu objetivo é que ela fique pronta e que fique mais rápida, enquanto eu, por causa da idade, vou ficar mais velho. Não queria flertar com essa ideia (de guiar nas Paralimpíadas). Vou continuar a guiar em treinos porque sou um técnico muito dinâmico, não mando um paratleta para casa porque ele está sem guia. Não vou depender de um guia. Minha prioridade é ser técnico. Mas competir no Rio... vocês estão me deixando nervoso (risos). Espero que não. Não deu tempo para pensar em nada. Aconteceu tão rápido. Vamos deixar acontecer para depois pensar - disse o campeão olímpico.

Mesmo fora da pista nas Paralimpíadas, Joaquim declara a torcida para os paratletas americanos. Apesar dos Jogos serem no Rio de Janeiro, o espírito competitivo e o profissionalismo ficam à frente do patriotismo. Como um dos orientadores de David Brown, concorrente direto de nomes como Lucas Prado e Lucas Gomes, ele prefere ver o pupilo no topo do pódio do que os compatriotas.

- Vou me sentir ótimo. É meu garoto. É uma questão de geografia. A única diferença é que ele é dos Estados Unidos. Se o Brasil estiver no caminho, vamos ter que ultrapassá-lo. O brasileiro pode chegar em segundo. O objetivo dos meus atletas são os meus objetivos. A diferença é que eu não consigo fazer o trabalho na pista, mas vou me assegurar que eles façam o trabalho para mim, todo dia, no treino.

Com 1,93m de altura, Joaquim contou que foi mais fácil se adaptar para guiar a baixinha Ivonne, de 1,50m, que o velocista David Brown. A cordinha com o americano era presa na mão, o que exige uma sincronia maior para adaptação das passadas. Com Ivonne, a cordinha é presa na cintura.

- É bem mais fácil com a Ivonne, mas tenho que manter minha posição quase na linha para que ela não pise na borda. Isso exige um ponto de concentração.