Dick Pound vê uso de doping no Quênia como evidente e alerta atletas.

19/11/2015 06:50

Presidente da comissão independente que analisou denúncias contra a Rússia afirma que a Wada esta preocupada com a questão e pede que competidores também fiquem.

Ex-presidente da Organização Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) e responsável por liderar a comissão independente que investigou o escândalo de doping da Rússia, Dick Pound agora lança os holofotes para o Quênia. Em entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal britânico “The Guardian”, Pound afirma que a situação do país africano deveria preocupar não apenas a Wada, mas todos os participantes de eventos de longa distância – historicamente dominados por corredores quenianos. 

- Está bem claro que o Quênia teve sucesso em eventos de longa distância, e também está bem claro que muitas drogas para aumentar a performance dos atletas estão sendo usadas no Quênia. Isso deveria ser motivo de preocupação para os atletas. Certamente é motivo de preocupação da Wada, mas deveria ser de qualquer um que participa destes eventos.

Em agosto, o Quênia encerrou o Mundial de atletismo de Pequim como líder do quatro de medalhas - obteve os mesmos sete ouros da Jamaica, mas conquistou quatro medalhas de prata a mais do que o país caribenho. Apesar da tradição na maratona, o país africano levou apenas uma prata na prova feminina. Entre os homens, o único representante a completar os 41,125 quilômetros chegou na 22ª colocação.

A boa campanha do país como um todo no Mundial, no entanto, ficou manchada pelos escândalos de doping. Mesma emissora a denunciar o esquema russo, a alemã ARD apresentou depoimentos de quenianos afirmando que seus compatriotas eram avisados sobre exames que deveriam ser surpresa, enquanto fiscais pedem propina em troca de ignorar resultados positivos. 

Um dia após a publicação deste material, a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) anunciou que duas atletas do Quênia haviam sido flagradas em exames antidopingrealizados no hotel em que a delegação do país está hospedada antes do início da competição. Joyce Zakari e Koki Manunga foram suspensas provisoriamente. Nos últimos três anos, mais de 30 corredores quenianos apresentaram resultados adversos em exames antidoping.

Diante do escândalo russo e das suspeitas que pairam sobre o Quênia, o chefe do Comitê Olímpico do país, Kipchoge Keino, cobrou uma postura mais severa das autoridades locais que, segundo ele, não demonstraram interesse em agir para evitar um escândalo ainda maior no esporte. Na última sexta-feira, ele já havia admitido à "Reuters" que a Wada poderia banir país em todas as competições internacionais de atletismo por quatro anos, incluindo, os Jogos do Rio. 

A Wada se mostrou insatisfeita com a falta de comprometimento da Federação Internacional do Quênia no intuito de evitar o doping. A entidade negou as acusações de corrupção e disse que não tem medido esforços em prol do esporte limpo. E ainda prometeu investigar os casos em que foram flagradas substâncias proibidas. 

Neste domingo, o técnico Paul Simbolei denunciou que três maratonistas teriam subornado a federação local para receberem penas reduzidas por terem sido flagrados nos exames antidoping. As informações foram entregues ao departamento de polícia do Quênia, segundo reportagem da "The Associated Press". Simbolei, inclusive, disse estar sendo ameaçado desde que levou suas denúncias para as autoridades.

Horas depois das declarações de Dick Pound, a IAAF revelou que está investigando acusações de doping no Quênia desde março.