Do salto sobre cama à prata: brasileiro voa alto com apenas uma perna

14/08/2015 23:11

Flávio Reitz, que teve perna amputada por causa de câncer no fêmur, abraça convite da esposa para tentar fazer salto em altura e impressiona com voo de 1,74m.

Flávio Reitz deixou as muletas no chão, correu com uma perna só e voou a 1,74m do solo nos Jogos Parapan-Americanos. O brasileiro impressionou em Toronto nesta quinta-feira. Mesmo com apenas uma perna, ele venceu adversários com duas pernas para conquistar a prata no salto em altura da classe T42/44/47, com paratletas amputados ou com má formação em algum membro - o Brasil ainda levou quatro ouros no dia (veja lista abaixo). Um resultado que valeu como título para quem aos 16 anos descobriu um tumor maligno no fêmur da perna esquerda, amputada após a quimioterapia não eliminar o câncer.

- Sempre pensei que a vida era uma bênção e a gente não poderia descartar por falta de uma perna, ou porque eu tenho um real a mais ou a menos. Em 2008 surgiu a oportunidade de começar no esporte, abracei com unhas e dentes. Vim para Toronto pensando inicialmente em melhorar mina marca, no caso igualei. Esse gostinho de ouro é mais um degrau que consegui na tentativa de me colocar bem no Mundial (em outubro). Vai ser pegado, tem uns quatro ou cinco atletas todos no mesmo nível de rendimento. Vai ser mais um degrau para conquistar uma medalha nas Paralimpíadas. Vai ter todo mundo lá, em casa, gritando "Vai, Flávio". Vai ser emocionante - disse o saltador.

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No coro por Flávio nos Jogos do Rio de Janeiro estará sua esposa Aline Rita de Barros. Ela foi a responsável por fazer o paranaense de 28 anos se aventurar no salto em altura depois de ter jogado handebol em cadeira de rodas e de ter competido em provas de lançamento no atletismo. Tudo por causa de saltos que ele dava para passar por obstáculos da casa, como cadeiras e camas.

- Em 2010, a Aline me convidou para fazer salto em altura. Minha primeira reação foi: "Só com uma pena? Você está doida?" Ela é professora de educação física e me convenceu. A gente começou a treinar mais efetivamente em 2011, e um ano e meio depois eu já estava na maior competição paradesportiva do mundo. Foi uma ascensão muito rápida. O engraçado é que ela percebeu minha capacidade através de uma cosia cotidiana. Eu pulei por cima de uma cadeira, uma cama. Ela falou: “Como você fez isso?”. Eu disse que não sabia, simplesmente saltei. Ela viu um vídeo das Paralimpíadas de Sydney com um amputado fazendo salto em altura. Ela vinculou uma coisa à outra, e estou aqui, representando o país como medalhista de prata - contou Flávio.

O paranaense de Francisco Beltrão se mudou para Itajaí em 2009 para poder se dedicar ao atletismo e desde então só cresceu na modalidade. Ele só não disputou o Parapan de Guadalajara por não haver concorrentes em sua classe, mas foi o quinto colocado nas Paralimpíadas de Londres na categoria T42. Em Toronto, sua classe foi unificada com outras duas para diferentes tipos de amputação. Neste caso, há uma espécie de índice técnico para cada marca para compensar a desigualdade nas limitações motoras. Com o salto de 1,74m, Flávio quebrou o recorde parapan-americano da classe T42, mas ficou com a prata, já que o americano Dion Townsend-Roberts fez a melhor marca da história na classe T46. No Mundial de Doha, em outubro, o brasileiro competirá apenas contra adversários de sua categoria, assim como no Rio 2016, e ele agora lidera o ranking mundial com a marca alcançada no Canadá.

- As pessoas costumam falar que têm uma admiração muito grande pelo que eu faço, pela capacidade que desenvolvi de fazer salto em altura só com uma perna, sem uso de nada, de prótese, e uma boa parte fala que é assustador ver a capacidade que a gente tem. Alguns perguntas como faço, eu digo que não sei. Só sei que eu treino todos os dias, vou lá e faço. A gente entra em um estágio de êxtase, de automaticidade dos movimentos. É uma sensação gostosa de poder quebrar uma barreira - contou Flávio.

Outros destaques do Brasil foram Thiago Paulino, João Victor Teixeira, Claudiney dos Santos e Verônica Hipólito, os únicos a subiram no topo do pódio no dia. O primeiro bateu o recorde das Américas do arremesso de peso da classe F57 (para cadeirantes), com a marca de 13,57m. João venceu a mesma prova e também com recorde continental com 12,83m, mas na classe F37 (paralisia cerebral). O terceiro venceu o lançamento de dardo F34/57 (paralisia cerebral e cadeirantes). Verônica, por sua vez, quebrou o recorde parapan-americano dos 200m rasos da classe T38 (paralisia cerebral).

Outra prova bastante aguardada da quinta-feira foi a dos 200m rasos T11. Pupilo de Joaquim Cruz - que também competiu em Toronto -, o americano David Brown mais uma vez quebrou o domínio brasileiro nas provas de velocidade para cegos, com o tempo de 22s74, recorde da competição. Os brasileiros Felipe Gomes (22s92) e Daniel Mendes (23s) completaram o pódio. Atual campeão mundial da prova, Lucas Prado ficou na quarta colocação.

OUROS
Verônica Hipólito - 200m rasos - T38
Thiago Paulino - arremesso de peso - F57
João Victor Teixeira - arremesso de peso - F37
Claudiney dos Santos - lançamento de dardo - F34/57 

PRATAS
Jenifer dos Santos - 200m rasos - T38
Teresinha de Jesus - 200m rasos - T47
Izabela Campos - arremesso de peso - F11/12
Flávio Reitz - salto em altura - F42/44/47
Felipe Gomes - 200m rasos - T11
Renata Teixeira - 1.500m - T11 

BRONZES
Edson Pinheiro - 200m rasos - T38
Sheila Finder - 200m rasos - T47
Claudiney dos Santos - arremesso de peso - F57
Heitor Sales - 200m rasos - T11