Do sonho da NFL ao atletismo, Browne supera tragédias para ser um símbolo

05/02/2016 15:40

Campeão mundial nos 100m e 200m, ex-jogador de futebol americano busca correr abaixo de 10s em 2016: "Quero ser lembrado por algo que dizem ser impossível".

Ao entrar em um estádio, Richard Browne Jr. parece hipnotizar todos à sua volta com seu carisma, simpatia e irreverência. O porte físico poderia até ser de um running back da NFL. Poderia, não fosse por um acidente que o levou a amputar a perna direita, após duas semanas de coma e 13 cirurgias reconstrutivas. Através da tragédia que tentou impor limites aos seus sonhos, o ex-jogador de futebol americano encontrou uma rota para continuar. Renasceu nas pistas como corredor e ainda quis assumir um papel na luta para diminuir ainda mais a linha que separa os paralímpicos dos demais atletas. Queria fazer história e, quem sabe até, disputar uma final olímpica com o jamaicano Usain Bolt. Ele já tinha alcançado o estrelato com a prótese, principalmente, após a prata em Londres 2012 e os três ouros no Mundial de 2015, quando um caminhão avançou o sinal vermelho e cruzou o caminho de seu carro, no mês passado, na Flórida. Quebrou duas costelas e sofreu uma forte concussão na cabeça, mas, precisou de apenas dois dias para ter alta no hospital. Em menos de três semanas, retomou os treinos. 

Depois do novo acidente, um dos principais candidatos ao ouro nos Jogos do Rio 2016 alterou o seu planejamento de treinos, mas segue firme rumo a outra meta ousada: correr abaixo dos 10s nos 100m e 20s nos 200m. No Mundial de Doha, no Catar, em outubro de 2015, ele não só conquistou o público com seu talento e carisma ao vencer nos 100m e 200m, como quebrou dois recordes mundiais (T44) e destronou Fonteles, o "homem a ser batido" até então, mesmo após um ano sabático. O americano também integrou a equipe campeã do revezamento 4x100m. 

- O acidente mudou a minha preparação para o Rio. Eu estou com o planejamento de treino atrasado. Para ajustar isso, eu vou trabalhar ainda mais duro para me preparar para o Rio... Fevereiro e março serão meses muito difíceis, porque eu vou treinar três vezes por dia para estar pronto para a minha temporada. Estou ansioso para a oportunidade de competir no Rio. Eu amo visitar o Rio. Já competi cinco vezes (na cidade)... Vai ser incrível - vislumbrou Richard. 

Quem olha o desempenho do velocista de 24 anos e 1,89m, distribuídos em puro músculo, não imagina que ele nunca havia pisado em uma pista de atletismo até 2011 e sequer conhecia o esporte paralímpico. 

- Ainda sou meio novo no esporte, isso é até engraçado. Tenho uma longa estrada pela frente. Já tive algumas conquistas, quebrei alguns recordes mundiais, mas, definitivamente, este não é o fim. Estou muito focado no Rio 2016. Correr com o Alan nos 200m foi o meu maior teste. Eu sabia que precisava me concentrar só em mim. Eu queria saber como estava em relação ao Alan, mas a prova de 100m é a minha predileta. Quero melhorar o meu tempo para o ano que vem. Espero correr abaixo dos 20s nos 200m e dos 10s nos 100m. Quero ser lembrado para sempre por ter conquistado algo que as pessoas dizem ser impossível. As pessoas diziam que atletas amputados nunca iriam quebrar a barreira dos 10s ou 20s nos 200m. Falavam que eu era louco por buscar marcas desta magnitude. Mal posso esperar por 2016 - disse Richard, que ano passado coloriu os cabelos de rosa em apoio à campanha "Outubro Rosa", em prol da conscientização sobre o câncer de mama, doença provocou recentemente a morte de sua avó.

Browne exala confiança e é um verdadeiro showman, fazendo até lembrar o estilo de Bolt. Supersticioso e com fobia de insetos, o americano também tem sua marca característica, uma dancinha que costuma lhe trazer sorte antes das corridas. Brinca, interage com a público e carrega com orgulho a bandeira dos Estados Unidos a cada vitória. Desde 2013, ele não sabe o que é perder. As conquistas recentes no Mundial do Catar acirraram a rivalidade com Alan Fonteles, que luta para recuperar o tempo perdido após um ano sabático. O brasileiro biamputado (T43) foi ao Oriente Médio defender os seus três títulos mundiais (100m, 200m e 400m), mas ainda está longe da forma ideal. Afastado das principais competições, viu surgir um adversário de alto calibre. 

O Mundial foi visto pelo americano como um teste de fogo em relação a Alan, cujo desempenho ainda era uma incógnita. Depois de ter sido superado por Browne pela segunda vez, o brasileiro que assombrou o mundo ao vencer o sul-africano Oscar Pistorius em Londres 2012 soltou uma provocação ao pé do ouvido do americano: "A gente se vê no Rio". 

- Enfrentei adversários incríveis no Mundial. Quebrar dois recordes mundiais foi maravilhoso. Finalmente, campeão mundial nos 100m, minha prova favorita. A preparação para o Mundial foi ótima, eu mudei de treinador recentemente e mal posso esperar pelos Jogos. Eu sei que o Alan estará preparado para 2016, então, vou voltar para casa para ficar pronto também. O Rio é uma cidade espetacular e a competição será inesquecível. Vai ser maravilhoso enfrentar o Alan na casa dele, em frente à sua torcida. Sei que ele estará no auge de sua forma. Ele já correu abaixo dos 20s, portanto, estou treinando pesado. Estou no esporte há três anos praticamente. Já consegui alguns recordes mundiais e estou sempre tentando evoluir, tentando tirar o melhor de mim para continuar correndo rápido. Londres 2012 foi a minha primeira edição dos Jogos e eu só corria há tipo seis meses. Desde então, tenho trabalhado duro - disse Browne, medalhista de prata nos 100m dos Jogos de Londres 2012.

 

Atualmente, o americano é dono de três recordes mundiais pela categoria T44 (amputados de um dos membros inferiores): 200m (21s27), 100m (10s61) e 60m (6s99). O único que lhe falta é na prova de 400m. As marcas impressionam para um homem que nunca havia pisado em uma pista de atletismo há menos de quatro anos. Browne ainda era um garoto quando viu a sua vida mudar em um piscar de olhos. A lembrança daquele dia cinzento de 2007 segue cristalina na memória. Para fugir do temporal em Jackson, Mississipi, sua terra natal, ele procurou abrigo em uma lavanderia da região, quando escorreu e se chocou com uma porta de vidro. A perna direita foi esmagada, e os estilhaços cortaram músculos, nervos e uma artéria, gerando uma série de complicações. O velocista tomou a difícil decisão de amputar o membro em fevereiro de 2010, após ficar em coma por duas semanas e dois meses na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). 

Foram quase três anos de batalha, 13 cirurgias e dezenas de tratamentos para evitar a medida drástica, mas as dores tornaram-se insuportáveis. Aos 19 anos, Richard renasceu e enxergou uma nova perspectiva de futuro. Um ano depois de conhecer o atletismo, o americano representou o seu país nos Jogos de Londres 2012. O cartão de visitas foi uma medalha de prata nos 100m (T44), assim como no Mundial de 2013, em Lyon, na França. Não demorou para se transformar em uma das maiores estrelas do esporte paralímpico. Atualmente, é o mais rápido do mundo entre os amputados de uma perna.  

Antes do acidente, Browne cresceu jogando futebol americano e basquete na cidade americana de Jackson, no Mississippi. Jamais havia pensado um futuro no atletismo e pisou pela primeira vez em uma pista da modalidade. Ele sequer conhecia o esporte paralímpico. Pensava que seria um professor de matemática e chegou a se formar em física pela Morehouse College, universidade de Atlanta, no estado americano de Georgia. A ascensão meteórica nas pistas trouxe a certeza de que ele estava no caminho certo. 

- Eu era jogador de futebol americano e nunca tinha pisado em uma pista de atletismo até o meu acidente. Eu estava no meu último ano do ensino médio e não tinha uma vida como a um de jovem de 19 anos deveria ter, então, decidi amputar a minha perna e foi a melhor decisão que eu tomei na vida. Eu acabei me chocando com uma porta de vidro. Estava chovendo muito nesse dia, eu escorreguei e tive um corte muito feio e profundo, cortou até o osso. Tive que cortar a minha perna e foi a melhor decisão que eu tomei na vida - lembrou o americano, que também é apaixonado por música, boxe e carros.  

As Paralimpíadas de 2016 serão transmitidas ao vivo pela primeira vez nos Estados Unidos desde Atenas 2004. É a sua grande chance de se eternizar. Para melhorar os seus tempos, o americano trocou Orlando, na Flórida, por Cambridge, na Grã-Bretanha, a fim de treinar com Hayley Ginn, ex-treinadora do velocista paralímpico Johnnie Peacock. Lá, em meios aos geeks, o atleta que se formou em física se sente em casa. Gostaria até de esbarrar com Stephen Hawcking um dia pelas redondezas, planeja realizar algumas aulas na faculdade, mas, por enquanto, o escritório é na pista. A mesma onde treinam nomes como o americano Justin Gatlin, campeão olímpico em Atenas 2004 e bronze em Londres 2012 nos 100m. Ele é uma grande inspiração para Browne, ao lado de Usain Bolt e de sua família. Segundo mais velho entre 10 irmãos e irmãs, Richard é pai de três filhos, Jayce, Brooklyn e Aea, e sempre foi muito ligado à família, outra grande inspiração em sua vida. 

- Eu treino com o Justin Gatlin, que é um daqueles caras que me ensinaram a ser profissional e me mostrou exatamente o que eu tinha de fazer dentro da pista. Bolt também é outro desses caras, e eu definitivamente me espelho nele. Já o conheci, não somos próximos, mas me parece ser uma pessoa excelente também. Ele treina muito. Eu e o Justin somos parceiros de treino e amigos. Nos divertimos juntos, mas temos um propósito. Estou treinando com os melhores e agora chegou a hora de mostrar isso para o mundo - contou o velocista, que, além de 2016, sonha em disputar também os Jogos de Tóquio 2020.

 

Richard venceu todas as 10 corridas que disputou em 2014 e vem quebrando barreiras e tabus às vésperas dos Jogos. Uma das façanhas planejadas por ele é o desejo de competir com atletas sem deficiência, quem sabe até, uma figura renomada como Usain Bolt. 

- Eu acredito que posso vencer qualquer um e quero ser um dos maiores da história. Gostaria de enfrentar o Bolt e acho que posso vencê-lo sim. Quem sabe nas Olimpíadas? Não importa quem esteja do outro lado, eu sempre acredito que sou capaz de vencer qualquer um.

Apontado como um fenômeno das pistas, Browne poderá romper as barreiras do esporte quando se menos esperar, segundo Craig Spence. Para o diretor de comunicação do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), em 30 anos, tanto os velocistas mais rápidos do mundo, como os melhores saltadores, sairão do esporte paralímpico. 

- Para mim, não há a menor razão para não termos em 20, 30 anos, um paratleta como o homem mais rápido do mundo, ou a mulher mais rápida do mundo, ou o melhor saltador. O esporte paralímpico ainda é algo novo. Teremos milhares de crianças nos próximos anos sendo inspiradas pelos atletas paralímpicos. Quem poderá dizer que, no futuro, Richard Browne não seja o homem mais rápido do mundo? Ou que Markus Rehm não possa realizar o maior salto do mundo? Eu não duvido de nada. Em 20, 30 anos, esta poderá ser a realidade.