Embaixadas britânicas teriam feito lobby por Coe para eleição da IAAF.

23/01/2016 09:27

Bicampeão olímpico assumiu presidência da federação Internacional em agosto.


O governo britânico teria ordenado que seus embaixadores fizessem lobby junto a líderes do atletismo mundial para apoiarem Sebastian Coe na eleição presidencial da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), em agosto do ano passado. Segundo documentos obtidos pela agência de notícias Associated Press (AP), mensagens foram enviadas aos diplomatas para assegurar que os “interesses britânicos fossem protegidos” e teriam "apoio pessoal do Primeiro Ministro" David Cameron.

Bicampeão olímpico dos 1.500m em 1980 e 1984, Coe foi o chefe do Comitê Organizador dos Jogos de Londres 2012. Integrante do partido Conservador e ex-membro do Parlamento, recebeu um aporte estimado em £ 63 mil (mais de R$ 360 mil) de uma agência esportiva financiada pelo governo britânico para sua candidatura ao cargo máximo da IAAF. Na votação, realizada em Pequim antes do início do Campeonato Mundial, o ex-corredor derrotou o recordista mundial do salto com vara Sergei Bubka por 115 votos a 92.

Segundo a reportagem publicada pela AP, embaixadas britânicas em todo o planeta receberam o telegrama três meses antes do pleito. Dentre os 12 pontos citados no e-mail, contra: "Encorajar seu delegado da IAAF, se possível, a declarar seu apoio público. "Trocas de e-mails teriam mostrado que embaixadores tiveram dúvida ao receber as ordens, que não continham um “guia sobre como/sobre os agentes oficiais poderiam fazer este lobby em apoio... se isto cruzava alguma das linhas vermelhas da IAAF”.

Não acho que seja justificável para qualquer político interferir na eleição de um órgão governante esportivo desta forma. Imagine se estivéssemos falando sobre (o presidente russo Vladimir) Putin. Estaríamos escandalizados – disse o Ministro do Esporte Clive Efford, membro do Partido Trabalhista, de oposição.

As trocas de e-mails obtidas pela AP mostram ainda como o escândalo de doping russo foi cogitado como um tema que poderia alavancar a campanha presidencial de Coe – o dirigente, no entanto, só tratou o doping russo como um problema generalizado após assumir o posto. Uma mensagem escrita por um funcionário do Departamento de Cultura, Mídia e Esporte em fevereiro revela o debate. 

- Podemos usar isto (campanha) com o FCO (escritório estrangeiro e da Comunidade Britânica). Mas dado o alto perfil da natureza da campanha de Seb e as correntes alegações sobre o doping generalizado em atletas russos, nós poderíamos decidir usar uma aproximação mais formal para maximizar o nível de apoio que o HMG (governo) pode oferecer para assegurar a melhor chance de sucesso – diz o e-mail.

COE ENFRENTA PROBLEMAS DESDE QUE ASSUMIU CARGO


Desde que assumiu o cargo, Coe tem enfrentado uma enxurrada de problemas no comando da IAAF. Em novembro, o ex-presidente Lamine Diack foi preso em Paris por três dias acusado de corrupção e lavagem de dinheiro ao acobertar casos de doping. Diante do escândalo e da comprovação de que o doping entre atletas russos ocorria em larga escala, a IAAF baniu toda a delegação do país de competições internacionais.

Com membros do alto escalão da IAAF em foco, as denúncias continuaram a surgir e a atingir figurões. Coe foi acusado de fazer lobby pela escolha da cidade americana de Eugene como sede do Mundial de Atletismo de 2021, tendo em vista seu cargo de conselheiro na multinacional Nike, que tem profunda ligação com a cidade. Apesar de o Conselho de ética da IAAF ter dado carta branca para seguir com as duas funções, Coe deixou o cargo remunerado.

Após a divulgação de dois relatórios de uma comissão independente da Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês), Coe se viu pressionado. As investigações apontavam que era impossível que membros da cúpula da IAAF não tivesse conhecimento da corrupção intrincada na entidade. O presidente desta comissão independente, Dick Pound, no entanto, defendeu pessoalmente a figura de Coe.

Pelo caminho, no entanto, o britânico perdeu alguns importantes apoiadores. A principal perda foi Nick Davies, braço direito de Coe e responsável por coordenar o escritório do dirigente em Mônaco. O jornal francês Le Monde publicou em dezembro de 2015 uma troca de e-mails entre Davies e Papa Massata Diack, filho do ex-presidente Lamine Diack e também procurado pela Interpol por corrupção. Na mensagem, fica claro que Davies sabia que atletas estavam irregulares e ainda tinha intenção de ocultar os casos, às vésperas do Mundial de Atletismo de Moscou, em 2013.