Ex-boleiro, cabeleireiro e problemas com visto: o Brasil na Copa de marcha

02/05/2014 11:24

Seleção brasileira viaja com oito atletas para a China, um time bem heterogêneo e com objetivos modestos na competição mais importante do ano na modalidade.

Oito atletas do Brasil viajaram na madrugada desta quarta-feira para Taicang, na China, em busca de bons resultados na Copa do Mundo de marcha atlética, neste fim de semana. A estreia brasileira será na prova dos 50km, às 21h desta sexta-feira (horário de Brasília). Mas, para ser um marchador no Brasil, o atleta precisa, literalmente, manter o rebolado. As dificuldades começaram bem antes do embarque. 50km, distância maior que a percorrida na maratona (42km). Nove vezes campeão da Copa Brasil, ele divide sua atenção entre a marcha e a tesoura. Claudio trabalha como cabeleireiro na cidade em que nasceu, Currais Novos (RN), a 180km da capital Natal.

- Não tem jeito né, não tenho apoio para correr, então tem que manter o salão. Trabalho oito horas por dia cortando o cabelo do pessoal. Tem dia que são 15 clientes, tem dia que não vem nenhum. É cansativo mas tento treinar marcha atlética todos os dias, ou pela manhã ou pela noite - afirmou o atleta que mantém o salão com a namorada e uma outra sócia.O principal atleta da atualidade no Brasil quase virou jogador de futebol. Caio Bonfim, que recentemente conquistou a medalha de ouro na etapa de Portugal do Circuito Mundial da modalidade, jogou durante um ano nas categorias de base do Brasiliense, time da capital federal. Ele lembra que o futebol o ajudou na marcha:

- Eu era um bom lateral-direito, sabia jogar. Tinha um ótimo preparo físico, todos sempre elogiaram e aí, por conta dos meus pais, tentei a marcha atlética e depois de um ano treinando já estava no Mundial sub-17 - contou Caio, filho de Gianetti Bonfim, sete vezes campeã brasileira nos fim dos anos 90 e início dos anos 2000, e João Sena, seu treinador.

Caio sonha ficar entre os dez primeiros na Copa do Mundo, mas sabe da dificuldade que vai encontrar contra os melhores do mundo:

- Treinamos muito bem e competimos melhor ainda neste início de ano. A expectativa é terminar no "top 10" mas, para isso, precisarei correr para a minha melhor marca. É uma boa chance de fazer meu melhor tempo, pois os melhores do mundo estarão lá ditando o ritmo - disse o marchador brasileiro, que tem como recorde na prova de 20km o tempo de 1h21m36.

José Alessandro Bagio, catarinense de 33 anos, quase não viajou para a competição pois seu visto chinês ficou pronto somente na última segunda-feira, dois dias antes do embarque. Segundo ele, o ocorrido não compromete, mas atrapalha os planos:

- Não podia tirar o visto, pois meu passaporte vence daqui a cinco meses, então eles não aceitaram. Fiz um pedido de emergência e aí o passaporte chegou só segunda-feira. Isso atrapalhou um pouco a preparação, mas tenho certeza que farei uma boa prova - disse José Alessandro, que esteve nas Olimpíadas de 2004 e 2008 terminando em 14º nas duas provas, e correrá a Copa do Mundo de marcha na distância de 20km.

A equipe é completada por Moacir Zimmermann, Jonathan Riekmann, Luiz Felipe dos Santos, Erica Sena e Cisiane Dutra Lopes. A prova dos 20km feminina será às 5h30 de sábado, e a masculina, às 23h10 (ambas no horário de Brasília).Em uma corrida de marcha atlética, os atletas são obrigados a ficar todo tempo com pelo menos um dos pés encostados no chão, o que faz com que eles tenham que correr balançando o quadril.

O percurso da Copa do Mundo tem 20km, e oito árbitros ficam espalhados para punir os atletas que desobedecerem as regras. Aquele que receber três cartões é automaticamente excluído da prova.

Um detalhe importante é que os árbitros não podem usar câmeras, têm que enxergar a olho nu se os atletas tiram os dois pés ao mesmo tempo do chão, o que é chamado de flutuação. Cada juiz só pode punir uma vez cada atleta, mesmo se o enxergar duas vezes cometendo a infração.

O caso mais emblemático de uma desclassificação na história foi o da australiana Jane Saville, que liderava a prova dos Jogos Olímpicos de 2000, disputados em Sydney, e foi eliminada quando faltavam menos de 500 metros para a linha de chegada. Nos Jogos Olímpicos, cada país pode levar apenas três atletas para cada uma das provas de marcha atlética, enquanto na Copa do Mundo o limite sobe para cinco, aumentando o nível da prova. Para o brasileiro Caio Bonfim, isso deixa a Copa mais forte que as Olimpíadas:

- Se com três chineses e três russos o negócio já é difícil, imagina com cinco de cada país? É uma prova muito mais difícil que a das Olimpíadas - afirmou o marchador brasileiro.

Nos Jogos Olímpicos de Londres, a Rússia ganhou medalha de ouro e prata na prova de 20km para mulheres, com Elena Lashamova e Olga Kaniskina e o título dos 50km com Sergey Kirdyapkin. Já a China levou o ouro e bronze nos 20km para homens, com Chen Ding e Whang Zhen.