Federação de Atletismo tentou abafar caso de 'doping'

02/10/2013 15:57

Leão Carvalho tinha deixado o Benfica havia pouco tempo quando teve um teste de doping positivo, na edição de 2004 do Crosse Internacional da Amora. Após a abertura do processo, o presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), Fernando Mota, entregou uma declaração à Comissão Disciplinar (CD) garantindo que, na altura da prova, o atleta não estava federado na FPA, quando, na realidade, encontrava-se registado como individual - estava federado, mas não tinha ligações a qualquer clube.

A CD aceitou os factos alegados por Mota como prova, mas puniu o atleta e determinou que Carvalho cumprisse a sanção quando voltasse a federar-se - na prática o fundista cumpriu a sanção, pois não renovou a filiação e esteve sem competir durante mais de dois anos por opção. Só que, após esse período, muito além dos prazos regulamentares, o Conselho Jurisdicional da federação analisou um recurso do fundista, mantendo a sanção, mas considerando-a cumprida. E, além de ter tentado travar a punição do atleta, a direcção da FPA violou os regulamentos internacionais: não notificou a IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) acerca deste e de outros acórdãos sobre dopagem.

O Crosse Internacional da Amora decorreu a 14 de Novembro de 2004 e Leão Carvalho foi quarto classificado. Mês e meio depois, a 23 de Dezembro, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) informou a direcção da FPA de que fora detectada cocaína numa das amostras de urina cedidas pelo atleta. Segundo o acórdão do caso, ao qual o DN sport teve acesso, a contra-análise foi realizada depois de uma reunião na sede da federação, na qual se esperou, em vão, que Leão Carvalho apresentasse uma justificação para a detecção da cocaína.

O exame da amostra B confirmou o resultado inicial, obrigando à abertura de um inquérito. Quatro dias antes de se pronunciar, a CD recebeu uma declaração de Fernando Mota. "Resulta igualmente da prova produzida nos presentes autos, nomeadamente da declaração emitida pelo Senhor Presidente da FPA, em 5 de Abril de 2005, que o ora visado Leão Carvalho não se encontrava à data da realização da competição atrás referida, na qual foi submetido ao controlo de antidopagem, filiado nesta federação", indica o acórdão da CD.

Mas as alegações desta declaração não são verdadeiras. Leão Carvalho efectuou em Outubro de 2004 a inscrição para a época 2004/2005 como atleta individual. É isso que consta nos registos da Associação de Atletismo de Lisboa, aos quais o DN sport teve acesso: Leão Carvalho limitou-se a transferir o seu estatuto de atleta do Benfica para atleta de alta competição em regime individual.