Há 25 anos, Ben Johnson quebrava recordes e 'chocava' o mundo

24/09/2013 17:48

Episódio envolvendo doping de canadense é um dos episodios mais marcantes da história do atletismo.

Faz 25 anos que o mundo acompanhou uma performance impressionante de Ben Johnson. O canadense, nascido na Jamaica, chegou à Olimpíada de Seul como o campeão mundial e o recordista dos 100 metros rasos. Na pista do Estádio Olímpico da capital coreana, o velocista fulminou sua marca anterior (9s83), que havia lhe dado o título no Mundial de Roma, em 1987. Correndo quatro centésimos mais rápido, ele unificou seus títulos. O caminho para a glória, entretanto, virou a rota para o precipício.
 
Faz 25 anos, portanto, que Ben Johnson entrou para a história como o primeiro grande ídolo do esporte a ser pego em um exame antidoping - o primeiro escândalo olímpico. Um dia depois da vitória, o canadense recebeu o resultado positivo para o esteroide anabolizante estanozolol. Perdeu o título, o recorde, deixou Seul rumo a Toronto suspenso por dois anos e proibido de representar o Canadá em qualquer competição.
A suspensão de Ben Johnson foi um divisor de águas na luta contra o uso de substâncias para a melhora de performance dos atletas. Àquela época, não existia a Agência Mundial Antidoping (Wada) e a desafagem entre a detecção de drogas e a difusão delas no esporte era ainda maior do que atualmente.
 
A punição a grandes ídolos do esporte por uso de doping não é uma novidade 25 anos depois. O Mundial de Atletismo disputado em Moscou, por exemplo, começou sob o impacto do positivo de ao menos três grandes nomes da modalidade: o americano Tyson Gay e os jamaicanos Asafa Powell e Veronica Campbell-Brown.
 
Mas não era assim em 1988, lembra o médico Eduardo De Rose, especialista em doping. 'A suspensão de Ben Johnson mostrou que até o atleta mais importante dos Jogos Olímpicos poderia ser punido. Ser pego no doping não era mais algo só para coadjuvantes. Era a demonstração de que quem cometesse uma violação, seria punido, não importasse o seu prestígio.'

 

Os 100 metros da Olimpíada de Seul ficaram conhecidos como a prova “mais suja” da história. Tanto que o americano Calvin Smith, quarto colocado na corrida - e acabou promovido a medalha de bronze após o positivo de Johnson - foi o único dos quatro primeiros colocados a nunca ser pego no doping.
 
Ainda assim, apenas o canadense foi punido, o que ainda revolta Smith, que acredita ser o real campeão daquela disputa. 'Nos últimos cinco ou dez anos da minha carreira, eu sabia que tinha sido negado a mim o direito de mostrar que eu era o melhor velocista limpo. Eu sabia que estava competindo contra dopados.'
 
Lewis, que tinha conquistado quatro ouros olímpicos nos Jogos de Los Angeles, quatro anos antes, foi promovido a campeão mundial e também a recordista, já que terminou a prova em Seul com o tempo de 9s92 - o recorde mundial, que era de Johnson antes da Olimpíada também foi apagado dos registros. O americano, que já era um ídolo do esporte, virou o contraponto do vilão Johnson.
 
Mas a aura de bom moço caiu por terra em 2003, quando surgiu a revelação de que ele havia dado positivo em três testes durante a seletiva americana para Seul por uso de estimulantes. O caso foi encoberto pelo Comitê Olímpico Americano, que preferiu acreditar na versão de que o velocista havia ingerido um suplemento natural contaminado. Não fosse assim, Lewis nem sequer teria ido à Olimpíada.
 
Lindford Christie, o terceiro colocado nos 100 metros e, posteriormente, medalha de prata, falhou em um teste para o estimulante da família da efedrina depois da final de Seul. O britânico afirmou ter tomado um chá de ginseng e foi inocentado pela comissão médica do Comitê Olímpico Internacional.
 
O brasileiro Robson Caetano, que conquistou a medalha de bronze nos 200 metros em meio ao burburinho causado pela suspensão de Johson, foi sexto colocado na final dos 100 metros - nos registros oficiais, ficou com o quinto lugar. Ele lembra que o positivo de Johnson não foi uma surpresa, mas que para ele ainda resta a decepção.
 
'Fiquei decepcionado com a idolatria atribuída a alguns atletas daquela final, e só um atleta apenas foi pego', conta Caetano, referindo-se aos outros positivos. 'A gente sabia (do uso de doping), dentro do nosso meio era muito comentado. Mas a gente ouve e toca o nosso barco. Fui para Seul para ser medalhista, e consegui.'
 
Após ser desmascarado, Johnson negou o uso de doping. Mas em uma investigação promovida pelo governo canadense, o técnico Charles Francis admitiu que ministrava esteroides ao velocista desde 1981.

 

Francis, que morreu em 2010, admitiu ter percebido que o uso indiscriminado do doping durante a Olimpíada de Montreal, em 1976, e percebeu que esse método era vital para o sucesso da Alemanha Oriental - o que vários documentos têm demostrado ser verdade após a queda do Muro de Berlim.
 
'Esteroides não substituem o talento, nem o treino, nem um programa competitivo bem planejado', afirmou o técnico. 'Eles não transformam um atleta ruim em um campeão. Mas se tornaram um ingrediente essencial de uma receita bastante complexa.'
 
Johnson ainda voltou a correr após a suspensão de dois anos, mas foi pego novamente em um teste em 1993 e acabou banido do esporte. Depois de 25 anos de Seul, o ex-velocista, agora com 51 anos, participa de uma campanha contra o uso de doping. Tanto que, para isso, retornou nesta terça-feira ao palco de sua maior glória e de seu maior fracasso: o Estádio Olímpico de Seul.