História olímpica do Brasil tem brigas, erro de digitação e viagem de navio

05/08/2014 22:17

Além de glórias e tristezas, participação é marcada por pancadaria no polo, equívoco de árbitra que mudou o resultado e longas viagens de navio. Veja lista de curiosidades.

Em 94 anos de história olímpica, o Brasil tem 108 medalhas, 23 delas de ouro. Mas o caminho dos atletas do país nesse período foi além de conquistas e decepções dentro das competições: de confusões dos mais variados tipos a erros de arbitragem e brigas. Ou até mesmo a invenção da volta olímpica e a criação de um estilo da natação. Existe inclusive uma dúvida de quem foi o primeiro atleta a representar o país em Jogos Olímpicos. Confira a lista de curiosidades abaixo:

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batalha aquática em 1932

O episódio mais sangrento da história olímpica do Brasil aconteceu em 1932, nos Jogos de Los Angeles, nos Estados Unidos. A seleção masculina de polo aquático enfrentou a Alemanha pela segunda rodada da competição. O jogo terminou 7 a 3 para os europeus e, depois da partida, os jogadores do Brasil foram para cima do árbitro húngaro Bela Komjadi, que dera 40 faltas a favor dos alemães e apenas quatro para os brasileiros.Dez policiais tiveram que entrar em cena para salvar o árbitro, que ainda assim levou dois socos. Quem comandou a "rebelião" brasileira foi o goleiro Luiz Henrique da Silva, que alcançou o árbitro quando ele estava na quinta fileira da arquibancada e acertou-lhe o rosto. Os policiais só pararam os atletas com cassetetes.

Os brasileiros foram banidos dos Jogos Olímpicos e inclusive aqueles que também estavam inscritos para a natação, o que era comum na época, não puderam disputar o evento. O polo aquático brasileiro foi suspenso e só pôde voltar a disputar as Olimpíadas em 1952. Se hoje em dia muitos atletas brasileiros sofrem com o problema de estrutura no país, imagine há 96 anos. Na primeira participação do Brasil, a delegação viajou em um navio do Rio de Janeiro para a Bélgica, local das Olimpíadas de 1920. O navio tinha o nome de Cuervello, e os 21 atletas estavam na 3ª classe. Eles não tinham sequer onde dormir e, por isso, precisavam esperar o último cliente sair do salão de alimentação, para abrir suas camas e descansar, para acordar antes de o primeiro passageiro chegar pela manhã.

Para piorar, durante a viagem, o comandante informou que a chegada na Antuérpia seria apenas no dia 5 de agosto, oito dias depois do início das provas de tiro. A solução foi chegar a Lisboa e pegar um trem com escala em Bruxelas.

As armas e munições do atletas de tiro esportivo do Brasil foram furtadas durante a viagem. Um dos brasileiros, Alfrânio Costa, conhecia o chefe da delegação norte americana, o coronel George Sanders, que concedeu aos brasileiros 2.000 balas e duas pistolas. Afinal, o que um bando de "pés rapados", que viajaram meses na terceira classe de um navio e não tinham munições, poderiam fazer nas Olimpíadas?

Sanders mal poderia esperar que o Brasil faria a viagem de volta com três medalhas na bagagem. Uma de ouro, uma de prata e uma de bronze. Todas no tiro e sempre vencendo os americanos.O Brasil não tem muita tradição em Jogos Olímpicos no nado sincronizado, mas já teve um representante decidindo medalha. Nas Olimpíadas de 1992, a canadense Sylvie Fréchette, campeã mundial, era favorita para conquistar o ouro. Fez sua apresentação, e suas notas ficaram entre 9,8 e 9,7. Mas a brasileira Ana Maria Lobo, árbitra na ocasião, deu a pontuação de 8,7, o que fez despencar o resultado de Sylvie. O problema é que Ana Maria digitou errado a nota, que na verdade era para ser 9,7.


A brasileira assumiu o erro e disse que a nota era para ser 9,7. O Comitê canadense entrou com um protesto, mas de nada adiantou. Kristen Sprague, a vencedora, dos EUA, reconheceu a superioridade da rival e a chamou para subir no lugar mais alto do pódio ao seu lado.

O COI demorou três anos para reconhecer o erro. Em 1995, premiou a canadense com a merecida medalha de ouro, mas não tirou o título da americana. Apesar do ocorrido, Ana Maria é uma das árbitras mais respeitadas do nado sincronizado mundial e é, até hoje, supervisora da Confederação Brasileira de Desportes Aquáticos (CBDA)O Brasil terminou as Olimpíadas de 1932 sem medalhas, e o atleta do país mais ovacionado na ocasião foi Adalberto Cardoso, último colocado dos 10.000m do atletismo. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) listou quem eram os atletas com mais chances de medalha entre os 22 que viajariam aos Estados Unidos. Adalberto era o 21º. A viagem para Los Angeles foi feita em um navio, o Itaquicê, e cada atleta que fosse descer na cidade das Olimpíadas tinha que pagar US$ 1,00. A delegação brasileira tinha apenas US$ 32,00 no navio, além de toneladas de café. Portanto, Adalberto nem desceu em Los Angeles, seguindo com o navio até São Francisco.

Adalberto, assim como outros oito atletas, teve que continuar vendendo sacas de café. Quando o navio atracou em São Francisco, Adalberto literalmente abandonou o barco. De lá, fugiu, e entre caronas e corridas, percorreu os 600km que separam as cidades em 24 horas e chegou à pista do estádio olímpico dez minutos antes da disputa dos 10.000m. Assustado, só teve tempo de colocar uniforme para participar da prova. Correu descalço.

Enquanto corria, sua história ia sendo divulgada, e quando completou os 10.000m depois de cair e levantar por três vezes, foi aplaudido de pé pelo público que lotava as arquibancadas. A história era contada no microfone pelo locutor que, dizem, foi inventor do apelido de Iron Man ao brasileiro.São poucos os atletas na história olímpica que já receberam do Comitê Internacional a Medalha Pierre de Coubertin, entregue a um atleta que tenha que tenha demonstrado espírito olímpico.

O único brasileiro na lista é o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, bronze nos Jogos de Atenas em 2004. Ele liderava a prova até o quilômetro 36, quando foi atacado por um padre irlandês, Cornelius Horan, que o derrubou.

O paraense levantou e viu sua diferença que estava em quase 200 metros cair drasticamente. Em pouco tempo, foi ultrapassado por dois atletas. Apesar do incidente, o brasileiro ainda chegou em terceiro e foi mais aplaudido pelo público que o próprio vencedor, o italiano Stefano Baldini. O filho de um diplomata da embaixada do Brasil na França, Adolphe Klingelhoefer, teria sido o primeiro atleta do país a disputar as Olimpíadas, em 1900, nos Jogos de Paris. Funcionário da Câmera de Comércio Brasil, ele sempre foi listado na história das Olimpíadas como atleta da França. Mas, um historiador olímpico divulgou em 2009 alguns documentos que provam que Adolphe representou as cores verde e amarela no atletismo, já que tinha também a nacionalidade do país.

O atleta disputou três provas, sendo eliminado na primeira rodada em todas: 60m e 200m rasos, além dos 110m com barreiras. Os Comitês olímpicos Brasileiro e Internacional, porém, não consideram Adolphe um atleta brasileiro. Depois do sucesso da participação olímpica em 1920, na Antuérpia, o Brasil foi convidado pelo Comitê Internacional para participar dos Jogos seguintes. O Governo Federal, presidido por Arthur Bernardes, liberou 350 mil contos de réis para a viagem da delegação, mas disputas políticas dentro da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) fizeram com que o investimento fosse cancelado.

O jornalista Américo Netto lançou, então, no jornal Estado de S. Paulo, uma campanha para arrecadar fundos para a viagem olímpica. Com o montante, somado ao apoio da Federação Paulista de Atletismo, dez brasileiros conseguiram viajar em um navio  até Paris. Essa, porém, foi a maior proeza da delegação, que voltou ao Brasil sem medalhas.Presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA) por 24 anos, entre 1974 e 1998, João Havelange participou de duas edições dos Jogos Olímpicos. E não foi jogando bola, e sim dentro das piscinas.

Um dos dirigentes esportivos mais influentes do século passado, Havelange participou das Olimpíadas de 1936 na natação, quando tinha 20 anos. Foi eliminado na fase classificatória dos 400m e dos 1500m livre. Voltou a fazer parte da delegação brasileira em 1952, como jogador de polo aquático, em que o Brasil perdeu os cinco jogos que disputou. Adhemar Ferreira da Silva foi o primeiro brasileiro a conquistar duas medalhas de ouro em Jogos Olímpicos. Ele venceu a prova do salto triplo em 1952, na Finlândia, e em 1956, na Austrália.

Fluente em seis línguas, chegou a Helsinque falando finlandês e, dessa forma, conquistou o público, que torceu por ele o tempo inteiro. Após a conquista, Adhemar fez questão de agradecer a cada setor da arquibancada que torceu por ele, dando uma volta no estádio inteiro. Para muitos historiadores, foi aí que surgiu a volta olímpica, modo como quase todos os atletas comemoram as conquistas atualmente.

O símbolo do São Paulo Futebol Clube tem cinco estrelas, três pelos títulos mundiais de futebol e duas referentes ao bicampeonato de Adhemar Ferreira, na época atleta do clube tricolor. Maria Lenk é um dos maiores nomes da história da natação brasileira. Tanto que atualmente, o principal torneio da modalidade no país leva seu nome, assim como o Complexo Aquático que sediou os Jogos Pan-Americanos. Mas ela poderia ter dado também nome a um dos quatro estilos de nado disputados hoje nas Olimpíadas.

Primeira mulher da América do Sul a participar de uma edição das Olimpíadas, em 1932, Maria Lenk criou, alguns anos depois, o nado borboleta. Ela entrou nas disputas do nado peito, no qual chegou a bater o recorde mundial dos 400m, e fez a braçada de forma diferente. Os dirigentes gostaram e, nos anos 1950, o nado borboleta passou a ser disputado nas principais competições mundiais.