Jornalista que denunciou escândalo da Rússia é intimidado por advogados.

04/01/2016 06:41

Hajo Seppelt recebeu cartas de "alerta" enviadas por escritório contratado pela IAAF.

A Federação Internacional de Atletismo (IAAF) poderá mais uma vez ser exposta ao constrangimento público. Neste domingo, o jornal “The Sunday Times” publicou que Hajo Seppelt, jornalista alemão responsável pelas denúncias que culminaram na suspensão do atletismo russo das competições internacionais, estaria sendo intimidado pela firma de advocacia que presta serviço à entidade. Segundo o jornal o britânico, Seppelt teria recebido três cartas de advogados afirmando que ele estava sendo monitorado.

As cartas foram enviadas pela firma Bird & Bird. A primeira delas alertava Seppelt sobre um documento vazado que mostrava dados do passaporte biológico de mais de 150 atletas.  

A segunda, enviada em março do ano passado, se referia a dois eventos vindouros e afirmava que um representante da empresa iria a ambos para assegurar-se que o jornalista não diria nada que pudesse render uma ação legal na Justiça. 

A última carta foi enviada ao alemão pouco antes do Natal, quando foi vazado um e-mail enviado em 2013 pelo ex-secretário geral da IAAF, Nick Davies, que dava a impressão de que a entidade estaria tentando acobertar o sistema de doping russo - Davies pediu afastamento do cargo em seguida. O documento recebido por Seppelt o alerta das consequências sobre a divulgação de informações difamatórias e imprecisas.

 

Em sua reportagem, o “The Sunday Times” faz ainda uma observação curiosa. Co-diretor da divisão de esportes da Bird & Bird, Jonathan Taylor foi recrutado pela IAAF para trabalhar na comissão que determinará se a suspensão dada ao atletismo russo deverá ou não ser revogada a tempo para que os atletas do país estejam aptos a competirem nas Olimpíadas de 2016.

A Federação Internacional de Atletismo marcou para o dia 16 de janeiro a primeira visita de sua força-tarefa à Rússia para verificar se a Araf está cumprindo as exigências. Por enquanto, os atletas russos estão proibidos de competir em eventos oficiais da modalidade. A participação da Rússia no Mundial Indoor de Atletismo de Portland, nos Estados Unidos, em março de 2016, é uma incógnita ainda.

A suspensão provisória também prevê que a Rússia não poderá sediar, no ano que vem, a Copa do Mundo de Marcha Atlética, em Cheboksary, e o Mundial júnior, em Kazan. E todos os casos de doping pendentes da Federação Russa de Atletismo deve passar para as mãos da Corte Arbitral do Esporte (CAS).

Relembre como o esquema de doping generalizado na Rússia foi desvendado

O pontapé para o sistema de dopagem russo ser desmascarado foi dado pela atleta Yuliya Rusanova e por seu marido, Vitaly Stepanov, oficial da agência antidoping russa (RUSADA). Especialista nos 800m rasos, Yuliya foi suspensa por dois anos no começo de 2013 depois de seu passaporte biológico apontar o uso de substâncias proibidas. No ano seguinte, ela e seu marido entraram em contato com o repórter alemão Hajo Seppelt para revelar o sistema russo de dopagem. Seppelt convenceu outros atletas e técnicos russos a se pronunciarem e produziu o documentário “Top-Secret Doping”, publicado pela TV alemã ARD em dezembro de 2014. Antes de serem divulgadas, as descobertas de Seppelt foram apresentadas à Agência Mundial Antidoping (Wada), que iniciou a investigação.

O doping na Rússia era institucionalizado, partia de dirigentes e técnicos. Os atletas raramente tinham voz na decisão sobre utilizar ou não o doping. Apesar de as substâncias dopantes serem proibidas na Rússia, agentes da RUSADA forneciam as drogas a atletas. A Federação Russa de Atletismo (ARAF) garantia que os exames antidopings não desmascarassem o sistema pagando propina ao laboratório de Moscou, chefiado por Grigory Rodchenkov. Propinas também eram pagas à Federação Internacional de Atletismo (IAAF), então presidida pelo senegalês Lamine Diack, para que os russos não fossem flagrados em competições internacionais.

Depois de receber do jornalista alemão Hajo Seppelt a apuração do documentário “Top-Secret Doping”, a Wada formou uma comissão independente para investigar a acusação. O órgão de controle antidopagem, que é formado por representantes do esporte e por autoridades governamentais, colocou como chefe da investigação o advogado canadense Richard Pound, ex-presidente da Wada.  Richard McLaren, professor de Direito e árbitro de longa data da Corte Arbitral do Esporte (CAS), e Gunter Younger, chefe do departamento de cibercrimes da Baviera, completaram o grupo de investigação que elaborou um relatório de 323 páginas, divulgado no dia 9 de novembro.

A investigação da comissão independente da Wada apontou a existência do sistema de dopagem que envolvia atletas, técnicos, dirigentes da ARAF, oficiais da RUSADA, integrantes do Ministério do Esporte da Rússia, membros da Polícia Secreta do país e representantes da IAAF. O relatório confirmou que atletas russos se beneficiam há anos de um programa sistemático de doping sustentado por propinas. Cerca de 1.417 amostras de controle de doping de vários esportes foram destruídas em dezembro de 2014, segundo o relatório