Lesões, imprevistos e protestos: Brasil encerra Mundial sem cumprir a meta.

02/11/2015 08:49

Terceiro lugar no quadro de medalhas em Lyon, país fica em 7º em Doha, com 8 ouros. Terezinha e Alan não defendem seus títulos, mas estreantes são o ponto alto.

O Brasil foi ao Mundial de Atletismo Paralímpico em Doha, no Catar, como uma das cinco potências do esporte, ao lado de China, Inglaterra, Estados Unidos, Rússia e Ucrânia. Terceiro colocado no quadro geral de medalhas em Lyon 2013, o país tinha como meta se manter no top 5, mesmo com os desfalques de Mateus Evangelista e Petrucio Ferreira, lesionados, e Verônica Hipólito, que fez uma cirurgia para retirar a maior porção do intestino grosso e evitar um câncer. As grandes esperanças eram Terezinha Guilhermina, Alan Fonteles e Odair Santos, mas, alguns imprevistos atrapalharam os planos do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), como protestos, altas temperaturas e lesões. Houve ainda casos preocupantes, como a hipertermia que levou Odair ao colapso, quando liderava com folga a final dos 5.000m em um dia de forte calor.

Os 39 paratletas da delegação verde e amarela, que ocupam atualmente o top 4 do ranking mundial, levaram o Brasil ao sétimo lugar no quadro geral de medalhas, com oito ouros, 14 pratas e 13 bronzes, um total de 35 pódios. Na última edição, em Lyon, o país conquistara 40 medalhas, sendo 16 ouros, 10 pratas e 14 bronzes.

 Após se tornar um dos maiores atletas do país, pela histórica vitória sobre o sul-africano Oscar Pistorius nos 200m em Londres 2012 ou pelos ouros em Lyon, nos 100m, 200m e 400m, Alan Fonteles retornou aos Mundiais depois de um ano sabático. Apesar de ainda estar longe da forma ideal, o velocista paraense subiu duas vezes ao pódio e saiu com a sensação de dever cumprido. Não defendeu os seus títulos, porém, levou a prata nos 200m e o bronze nos 100m. Alan acabou sendo destronado pelo showman americano Richard Browne.

Eu tenho certeza que eu estou no caminho certo para o Rio. Estou na expectativa para voltar ao Brasil e treinar para 2016. Quero ser a cara dos Jogos. Vou ser o atleta mais falado do mundo. Dei o meu melhor. Ganhei uma medalha de prata e uma de bronze. Pode não significar muito para as pessoas, mas para mim significa bastante pela minha volta. Muitas desacreditaram de mim e disseram que estava aqui só por marketing. Acho que dei um bom recado. Os meus recordes ainda estão aí. Nunca ninguém bateu, seja nos 100m ou nos 200m - disse Alan.

As lesões também atrapalharam. Machucados, atletas como Daniel Mendes, Jhulia Karol, Thalita Simplício e até mesmo o guia de Terezinha, Guilherme Santana, receberam tratamento médico e conseguiram competir, apesar das dores. Petrucio, que faria a sua estreia em Mundiais no Catar, não se recuperou a tempo e deixou o caminho livre para Yohansson Nascimento. Um dos motivos para a maior incidência foi o calendário, com pouco tempo de intervalo entre o Mundial e o Parapan de Toronto, no Canadá, em agosto. Os competidores realizaram treinos de pico nos dois períodos, e muitos sentiram a pressão. 

- Tivemos um resultado positivo diante das adversidades, mas a nossa meta era estar entre os cinco melhores. Não cumprimos esta meta e levamos isto de lição. Passamos por problemas graves de lesão e temos um bom espelho do que ocorreu para chegarmos bem em 2016. Havia medalhas que contávamos como certas, alguns por lesão, outros por termos sido desclassificados pelo fato de o guia ter pisado na linha. Vamos recuperar as medalhas que perdemos para ficar entre três melhores no Rio e avaliar a questão das lesões a fim de chegar com uma equipe muito inteira para 2016. Erramos a um ano dos Jogos, mas temos tempo. Este Mundial foi um teste de fogo, a competição mais difícil que tivemos de organizar e saímos com uma boa bagagem. No Rio, queremos que os atletas pensem apenas na medalha - avaliou Edilson Alves da Rocha, o Tubiba, diretor técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

 

A posição também poderia ter sido melhor caso o país não tivesse sofrido a desclassificação em uma prova que levaria ouro. Campeão nos 200m e medalhista de prata nos 100m T11 (cego total), Felipe Gomes venceu ainda a disputa dos 400m, contudo, o seu guia, Jorge Pereira Borges, pisou na linha da raia que separa os competidores, e o atleta perdeu o título mundial, que ficou nas mãos de Daniel Mendes, também alvo de protestos. No revezamento 4x100m, a equipe composta por Terezinha Guilhermina, Jhulia Karol, Jerusa Geber e Alice Corrêa foi prata, mas também sofreu umadesclassificação. 

O diretor técnico do CPB apostou na estrutura do centro de treinamento do atletismo paralímpico, em São Caetano, para evitar futuras lesões e realizar uma boa preparação para as Paralimpíadas do Rio. O local conta com profissionais de diversas áreas, como médicos, fisioterapeutas, fisiologistas, massoterapeutas, psicólogos e nutricionistas.

 

Um dos grandes destaques do Brasil foi Daniel Tavares, que também estreou com um ouro, o primeiro do país em Doha e também entre competidores com deficiência intelectual. Para Tubiba, um dos pontos altos do campeonato foi o desempenho da estreante Silvânia Costa,campeã mundial no salto em distância, enquanto a decepção veio com Terezinha Guilhermina. Maior medalhista do Brasil em Mundiais, ela encerrou a sua participação com três pratas (200m, 400m e revezamento 4x100m), se despedindo sem títulos pela primeira vez em 10 anos. A velocista não se classificou para a final dos 100m, dando um fim à sua invencibilidade, desde Assen, na Nova Zelândia, em 2006. 

- Tivemos medalhas que a perdemos que não dá para ficar feliz, como ocorreu com a Terezinha, que ficou sem nenhuma medalha de ouro. Foi uma surpresa, pois ela ainda é a melhor atleta e ainda tem as melhores marcas, mas não conseguiu encaixar a sua melhor corrida. É frustrante tanto para nós como para ela. Mas, por outro lado, tivemos boas surpresas, como a Silvânia, que ganhou a medalha de ouro e bateu o recorde da competição. O Yohansson também foi uma boa surpresa, ele melhorou os seus tempos e saiu daqui com duas medalhas (ouro nos 200m e prata nos 100m). Dobramos o número de medalhas nas provas de campo, vimos os novos atletas conquistando boas marcas e consagrados com lesões, como o Lucas Prado, o Mateus, que ficou no Brasil, o Odair, que sofreu hipertermia... Mas saímos com um número expressivo de medalhas e vamos para 2016 com grandes chances de atingir a meta - disse Tubiba.

Coordenador técnico do atletismo paralímpico, Ciro Winckler contou que o CPB tomará todas as medidas possíveis para evitar os erros e prevenir os atletas de lesões, como uma maior supervisão e controle sanguíneo. Segundo ele, a meta é estar entre os cinco melhores no Rio. 

- Enfrentamos problemas desde a preparação, imprevistos como a lesão do Mateus, a cirurgia da Verônica e a lesão do Petrucio. Em Doha, tivemos uma sequência de problemas meio fora do controle, como a questão da temperatura. Tivemos o maior índice de lesões entre os países do Mundial que nos levaram a pensar um pouco. Isto também foi muito associado ao calor, porque vem a questão também da desidratação, a qualidade de sono, então, tudo isso pode provocar o impacto da lesão. Tivemos casos raríssimos como a hipertemia. Não podemos errar mais. Não tivemos lesões em Lyon e no Parapan, portanto, precisamos reavaliar o que aconteceu, entender o que houve com os atletas e fazer um ajuste fino nos próximos 300 dias rumo a 2016.