Maior campeã do atletismo, Terezinha desabafa: "Perdi por ser deficiente".

02/11/2015 08:51

Lesão de guia atrapalhou campanha da brasileira. Após ver chinesa lhe roubar 3 títulos mundiais, atleta ganha presentes de rival no Catar: "Bálsamo para momento doloroso".

Pela primeira vez em 10 anos, Terezinha Guilhermina

 deixou um Mundial Paralímpico de Atletismo sem sequer uma medalha de ouro. Estrela em Lyon, na França, em 2013, ela foi a Doha, no Catar, defender os seus três títulos nas provas de 100m, 200m e 400m T11 (cego total), mas sofreu com imprevistos e não pôde cumprir a sua missão. Maior medalhista brasileira da história em Mundiais, com 17 pódios, sendo 13 ouros e quatro pratas, a velocista foi prejudicada pela lesão na coxa direita de seu guia, Guilherme Santana, e foi destronada pela chinesa Cuiqing Liu, campeã das duas provas, além do revezamento 4x100m. Insegura pela situação de seu parceiro habitual, ela optou por substituí-lo na disputa dos 100m por Rafael Lazarini, mas teve pouco tempo de adaptação, e a falta de sintonia pesou nas pistas do Qatar Sports Club.

 

Desceu um sabor amargo, foi uma surpresa para todo mundo. Eu perdi pelo fato de ser deficiente visual e de não ter conseguido ter a possibilidade de fazer o meu melhor nesse caso. Funcionamos como um time, não dá para trabalhar se o time todo não está bem. Não adianta ter melhor goleiro, se o atacante está machucado, e não adianta ter o melhor atacante, se o goleiro está machucado. Atletismo é um esporte coletivo. Não sou a melhor do mundo sozinha, preciso ter o melhor do mundo ao meu lado para sustentar um título. A relação guia e atleta é como a de um piloto de Fórmula 1 e o seu carro. Você pode ter o melhor carro, mas se você não tem o melhor piloto, você não ganha. Se o piloto está com problemas, está doente, ele não vai correr do mesmo jeito. Eu não preciso de um guia, eu dependo de um dia - disse Terezinha.

A heptacampeã mundial se despediu do emirado do Oriente Médio com duas pratas, nos 200m e 400m, mas não conseguiu se classificar para a final dos 100m. Foi a primeira vez em 10 anos que ela não pôde disputar uma medalha na prova que é sua especialidade. A mineira de Betim era incontestavelmente a número um do mundo nos 100m. Apesar das derrotas amargas, ela ainda tinha uma chance de subir ao topo do pódio no revezamento 4x100m. Voltou a correr ao lado do Guilherme, a equipe conquistou a prata, porém, foi desclassificada por um erro cometido pelo guia de Jhulia Karol, que não estavam com as duas mãos no bloco no momento da largada.

- Não estou me sentindo derrotada. A menina que ganhou a medalha de ouro (Cuiqing Liu) não chegou nem perto das minhas marcas, não bateu nenhum recorde da competição ou chegou perto dos recordes mundiais que são meus. Queria ter repetido meus resultados, mas, infelizmente, não foi possível. Saio daqui pensando que treinar é importante, mas, nós, enquanto time, devemos trabalhar e nos precaver na mesma proporção. O meu desempenho foi bom dentro do que foi permitido. Não consegui fazer o que eu estava treinada para fazer. Tivemos problemas técnicos e acidentes, como a lesão do Guilherme e a descoordenação com o Rafael. Mas foi bom que tenha acontecido agora, a um ano dos Jogos, do que em 2016. Vai servir de diagnóstico para nortear as adaptações, mudanças e transformações para 2016 - analisou.


Soberana há uma década, Terezinha enfrentou um duro choque de realidade. Se no início da competição, ela não via adversárias à sua altura e tinha a si mesma como sua maior rival, discurso mudou após uma campanha frustrante para uma atleta que se acostumou a vencer. A atleta terá apenas cinco de dias de férias antes de voltar aos treinos visando as Paralimpíadas do Rio 2016. Em seus planos, ainda estão um maior período de aclimatação na sede dos Jogos.

- Estou bem e resetei o que aconteceu, mas chorei a noite inteira (quando não foi à final dos 100m). Viver o luto da derrota te faz um campeão consagrado, e você dá mais valor às vitórias. Para quem sempre ganhou ouro, a prata é uma derrota. Fiz um esforço subumano para não desmontar na frente das pessoas e me reerguer. Se Jesus não desistiu da cruz, eu não vou desistir das minhas medalhas. Vou acertar alguns detalhes, como a aclimatação, pois no Rio também faz calor e exige atenção maior. E ainda tem a pressão psicológica para lidar com os desafios de ter adversárias próximas do meu nível, coisa que há muito tempo eu não tinha. Adversárias eu sempre tive e respeitei, mas a minha principal é a Terezinha Guilhermina. Aqui neste Mundial eu não perdi para outra pessoa se não a Terezinha Guilhermina. 

Pouco tempo depois de ver Cuiqing Liu roubar o seu terceiro título, Terezinha teve um encontro inesperado com a chinesa no saguão do hotel em que as duas delegações estão hospedadas, próximo ao estádio. Longe dos holofotes e do assédio da mídia, as adversárias tiveram o seu primeiro momento íntimo. Fã da brasileira, a asiática, que completava aniversário naquele dia, pediu para tirar fotos com a heptacampeã mundial e deu a ela dois presentes: um lenço chinês dentro de uma caixinha e um buquê de flores que ganhou quando subiu ao nos 100m. 

- Foi um momento muito especial para mim, depois de tantos atropelos. Toda a equipe da China parou para tirar foto comigo, demonstrando um grande respeito pelo meu trabalho e pelo que eu significo para o esporte e o atletismo paralímpico mundial. Era aniversario dela, eu dei parabéns, e a chinesa ficou muito emocionada e feliz. É difícil você ser atleta e ídolo. Não tínhamos tido nenhum tempo juntas. Depois da competição, estavam todas as câmeras voltadas para nós, foi muito bom. Um bálsamo para esse momento doloroso. Na caminhada rumo a 2016, a brasileira planeja aumentar o período de treinos com o técnico, Amaury Veríssimo. Radicada em Marília, ela passava uma semana por mês treinando com ele em São Caetano. A velocista também planeja uma longa conversa com o seu guia, para corrigir alguns detalhes do trabalho e acertar o planejamento para os Jogos. Terezinha e Guilherme iniciaram a parceria vitoriosa em setembro de 2010. O primeiro Mundial foi no ano seguinte, em Christchurch, na Nova Zelândia. Juntos, eles já quebraram seis recordes mundiais.Vamos bater uma DR (discutir relação) para ver o que melhorar até 2016. A relação guia e atleta é como um casamento, mas é um casamento um pouco mais tenso. Eu brinco que é como um casamento de artista, sabe? Todo mundo bota o bedelho, todo mundo tem uma opinião, acha isso e aquilo. Todo mundo conhece a gente nas competições e nas pistas, mas o trabalho nos bastidores é algo muito mais intenso. Não tem plateia. É esse trabalho que a gente fez até aqui e vai continuar para estar melhor no ano que vem. Cinco anos sem um acidente de percurso é um recorde. Acidentes acontecem, mas não se repetem comigo. Pelo menos, farei o possível e o impossível para evitá-los - finalizou.