Na evolução dos recordes mundiais, Quênia ratifica domínio na maratona

11/10/2013 15:35

Fatores sociais, biológicos e históricos baseiam teorias da força singular dos atletas. Em 15 anos, quenianos quebraram a melhor marca três vezes.

A saga por tempos cada vez mais baixos é motivação (e consequência) para quem compete no mundo do atletismo. Nas maratonas, o relógio pode ser, ao mesmo tempo, inimigo e aliado. No último domingo, após dois anos, o recorde mundial foi mais uma vez ultrapassado. O queniano Wilson Kipsang Kiprotich terminou a Maratona de Berlim em 2h03m23, 15 segundos a menos do que a marca do também queniano Patrick Makau Mustyoki, campeão e recordista em 2011.

info Maratonas recordes - 2 (Foto: arte esporte)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Nos últimos 15 anos, um abismo de 3 minutos e 18 segundos se formou entre o recorde do brasileiro Ronaldo da Costa, campeão em Berlim, em 1998, e a atual marca de Kipsang. De lá para cá, foram sete quebras de recorde. Todas marcas conquistadas por africanos - três vezes, por quenianos.

- Na minha opinião, está acontecendo nas maratonas o que aconteceu há algum tempo nas provas de 10 mil km na pista. De uns anos para cá, os quenianos realmente aprenderam a correr a maratona. Arrisco a dizer que não será um recorde duradouro. O próprio Kipsang consegue correr em 2h02m se estiver bem. Eles vêm colocando os melhores em uma prova só, isso faz diferença. Antes, os atletas passavam para as maratonas com 28, 29 anos, hoje, com 19 anos já tem queniano se preparando para provas longas - explicou Marilson dos Santos, que terminou a Maratona de Berlim, em sexto, com o tempo de 2h09m24.

A ciência busca exaustivamente explicar a superioridade dos quenianos em provas de longa distância. Em um estudo recente, o Colégio Americano de Medicina Esportiva listou uma série de fatores que ajudam a entender a supremacia.

- Assim como aqui no Brasil costumamos dizer que os garotos dormem com uma bola de futebol, no Quênia eles “nascem correndo”. Além de serem máquinas energéticas excepcionais com elevados índices de consumo de oxigênio, eles apresentam um biótipo geneticamente herdado que os torna extremamente eficientes. A chamada eficiência da corrida, que representa o quanto de energia se gasta para correr a uma determinada velocidade, é um fator excepcional nestes corredores. Em outras palavras, eles são muito mais econômicos para correr. Além deste potencial herdado, os africanos se beneficiam com os avanços da ciência - avaliou o fisiologista e especialista do Eu Atleta, Turibio Barros.

A evolução da ciência esportiva e as novas tecnologias dos materiais esportivos são fatores lembrados pelo técnico Adauto Domingues. O treinador de Marilson dos Santos e outros atletas brasileiros citou a recente evolução do Quênia no cenário da modalidade.

- De uns anos para cá, o Quênia passou a ter 10, 15 atletas participando das maratonas. Só conseguiram ser campeões olímpicos em 2008, com Samuel Wanjiru. Os etíopes não ficam para trás, mas o número de atletas é bem inferior quando comparados com o Quênia. Isso também acontece com o Brasil, que só contou com o Marilson em Berlim. Reunir uma quantidade de atletas com essa qualidade é um diferencial. Isso tudo aliado à evolução na reposição de nutrientes, material esportivo, melhora da parte fisiológica, entre outros detalhes, faz muita diferença na quebra desses recordes - opinou Adauto Domingues.

Uma das teorias envolvendo a alta performance queniana está relacionada a fatores históricos. A evolução biológica do ser humano é lembrada por Turibio Barros ao explicar o estudo americano.
- Os pesquisadores apontaram um aspecto que remonta a milhares de anos atrás. As tribos africanas das quais se originaram os habitantes do Quênia viviam em regiões de grandes planícies, onde para sobreviver os indivíduos precisavam percorrer longas distâncias, tanto para buscar alimento e água, como para se proteger de predadores. Assim, prevalecia a lei da seleção natural, onde quem sobrevivia não era o mais forte, e sim, o mais resistente. Este fato de influência do meio ambiente originou uma população que até hoje sobrevive correndo - apontou o fisiologista.

Fatores externos e força de 'equipe'

Na última prova disputada em Berlim, os atletas tiveram outra adversidade comum aos corredores: o vento. Em determinado momento da prova, Kipsang diminuiu o ritmo ao avançar contra a força do ar.

Na Maratona de Berlim, eu estive bem na primeira metade, mas na segunda parte tive queda de rendimento. O vento que atrapalhou a todos também me atrapalhou. Se não fosse pelo vento, o Kipsang tinha feito um tempo menor ainda - relatou Marilson dos Santos.
Após 15km, Marílson já aparecia entre os dez primeiros colocados, em uma prova que teve ritmo alucinante. Exatamente na metade da corrida, um etíope e nove quenianos estavam entre os líderes. Marílson voltou a figurar no grupo da frente no km 30 da prova, considerada uma das cinco melhores maratonas do mundo e uma das mais rápidas.

- Acredito que, quanto mais corredores um país tiver, melhor. Recentemente no Mundial de Moscou, tivemos o Solonei e o Paulo Roberto representando o Brasil. O ideal era ter mais atletas assim como o Quênia tem. Eles ditam o ritmo da prova. Mas é um processo. Não está fácil para ninguém correr contra eles - finalizou Marílson.