Novo relatório indica envolvimento de Putin em escândalo de doping russo

14/01/2016 11:06

Informações foram obtidas pela agência de notícias AP. Documento oficial de 89 páginas será divulgado nesta quinta-feira e deixa presidente Seb Coe sob pressão.

Informações obtidas pela agência de notícias Associated Press (AP) apontam que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, participava da tomada de decisões sobre a participação de atletas do país que haviam sido flagrados em exames antidoping em competições internacionais. Segundo a AP, o ex-presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) teria consultado o Kremilin sobre a situação de nove atletas no Mundial de Atletismo de 2013, que teve Moscou como sede. 

As revelações da AP vêm à tona horas antes da divulgação de um documento de 89 páginas elaborado por uma comissão independente contratada pela Agência Mundial Antidoping (Wada) para investigar a fundo o escândalo de doping generalizado do atletismo russo, exposto mundialmente pela primeira vez no final de 2014 e que culminou na suspensão do país das competições internacionais chanceladas pela IAAF.

Escrito por Dick Pound, ex-presidente da Wada e chefe da comissão, o documento denuncia uma ‘’corrupção enraizada” na IAAF e coloca sob forte pressão o atual presidente da entidade, Sebastian Coe. Eleito em agosto de 2015, o britânico ocupou durante anos o cargo de vice-presidente. De acordo com a AP, o relatório da Wada afirma que não havia forma de que membros do alto escalão da IAAF, incluindo Coe, não tivessem ciência da extensão das tratativas entre o ex-presidente da entidade, Lamine Diack, e as autoridades russas.

A AP cita dois episódios para mostrar o quão estreitas eram as relações entre Diack,e os russos. Primeiro, revela encontros entre o senegalês e o advogado Huw Roberts, que às vésperas do Mundial de Moscou teria lhe passado detalhes sobre o doping de nove atletas russos e perguntado como lidar com os casos. Diack teria respondido que estava em “uma posição difícil, que poderia somente ser resolvida pelo presidente Putin, com quem mantinha amizade”. Nenhum destes atletas competiu no Mundial de Moscou, mas os casos também não foram investigados a fundo pela IAAF. Em janeiro de 2014, Roberts se desligou da entidade. 

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Vale destacar que, desde novembro de 2011, Diack havia passado os casos de doping envolvendo o passaporte biológico de atletas russos para seu advogado pessoal, Habib Cissé – preso junto com o ex-mandatário em Paris, em novembro do ano passado, sob a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro.

O outro episódio que mostra a estreita relação entre a cúpula da IAAF e as autoridades russas se refere a um encontro em 2012 em um hotel de Moscou. Estariam na reunião um conselheiro de uma rede de televisão russa, Habib Cissé, Papa Massata Diack (filho de Lamine e ex-consultor da IAAF) e o chefe da Federação de Atletismo Russa à época, Valentin Balakhnichev (que também ocupava o cargo de tesoureiro honorário da IAAF). 

Após a reunião, Massata teria conseguido mais que triplicar a meta estipulada pela TV russa para obter os direitos de transmissão do Mundial de Moscou, passando-a de US$ 6 para US$ 25 milhões (mais de R$ 100 milhões). Um banco russo deu o suporte ao acerto.

O relatório a ser divulgado nesta quinta-feira será o segundo de Dick Pound. O primeiro, publicado em novembro, detalhava o sistema de corrupção russo. Diante de suas revelações, a IAAF optou pela suspensão da seleção de atletismo do país de todas as competições internacionais – participações no Mundial Indoor de Portland e nos Jogos do Rio 2016 estão em xeque -, e pelo descredenciamento do laboratório em Moscou responsável por realizar os testes antidoping dos atletas do país.

A suspensão provisória também prevê que a Rússia não poderá sediar, no ano que vem, a Copa do Mundo de Marcha Atlética, em Cheboksary, e o Mundial júnior, em Kazan. E todos os casos de doping pendentes da Federação Russa de Atletismo deve passar para as mãos da Corte Arbitral do Esporte (CAS).

Relembre como o esquema de doping generalizado na Rússia foi desvendado

O pontapé para o sistema de dopagem russo ser desmascarado foi dado pela atleta Yuliya Rusanova e por seu marido, Vitaly Stepanov, oficial da agência antidoping russa (RUSADA). Especialista nos 800m rasos, Yuliya foi suspensa por dois anos no começo de 2013 depois de seu passaporte biológico apontar o uso de substâncias proibidas. No ano seguinte, ela e seu marido entraram em contato com o repórter alemão Hajo Seppelt para revelar o sistema russo de dopagem. Seppelt convenceu outros atletas e técnicos russos a se pronunciarem e produziu o documentário “Top-Secret Doping”, publicado pela TV alemã ARD em dezembro de 2014. Antes de serem divulgadas, as descobertas de Seppelt foram apresentadas à Agência Mundial Antidoping (Wada), que iniciou a investigação.

O doping na Rússia era institucionalizado, partia de dirigentes e técnicos. Os atletas raramente tinham voz na decisão sobre utilizar ou não o doping. Apesar de as substâncias dopantes serem proibidas na Rússia, agentes da RUSADA forneciam as drogas a atletas. A Federação Russa de Atletismo (ARAF) garantia que os exames antidopings não desmascarassem o sistema pagando propina ao laboratório de Moscou, chefiado por Grigory Rodchenkov. Propinas também eram pagas à Federação Internacional de Atletismo (IAAF), então presidida pelo senegalês Lamine Diack, para que os russos não fossem flagrados em competições internacionais.

Depois de receber do jornalista alemão Hajo Seppelt a apuração do documentário “Top-Secret Doping”, a Wada formou uma comissão independente para investigar a acusação. O órgão de controle antidopagem, que é formado por representantes do esporte e por autoridades governamentais, colocou como chefe da investigação o advogado canadense Richard Pound, mais conhecido como Dick Pound, ex-presidente da Wada. Richard McLaren, professor de Direito e árbitro de longa data da Corte Arbitral do Esporte (CAS), e Gunter Younger, chefe do departamento de cibercrimes da Baviera, completaram o grupo de investigação que elaborou um relatório de 323 páginas, divulgado no dia 9 de novembro.

A investigação da comissão independente da Wada apontou a existência do sistema de dopagem que envolvia atletas, técnicos, dirigentes da ARAF, oficiais da RUSADA, integrantes do Ministério do Esporte da Rússia, membros da Polícia Secreta do país e representantes da IAAF. O relatório confirmou que atletas russos se beneficiam há anos de um programa sistemático de doping sustentado por propinas. Cerca de 1.417 amostras de controle de doping de vários esportes foram destruídas em dezembro de 2014, segundo o relatório.