O melhor brasileiro na Maratona de

19/12/2013 10:04

César Martins completou a prova mais famosa do mundo em 2h25m18s,
mas este não é o único número impressionante deste amador de elite.

O engenheiro César Martins é um amador de elite. Aos 42 anos ostenta marcas que o colocam entre os melhores corredores de rua do Brasil e chamam atenção mundo afora. Faz os 5km em 15m33 e os 42km em 2h25m18s, tempo obtido na Maratona de Nova York 2013, quando foi o primeiro brasileiro a cruzar a linha de chegada.

- Antes de Nova York, meus melhores tempos eram das maratonas de Chicago (2h28 em 2006) e de Porto Alegre (2h27 em 2012), mas eu havia cometido alguns erros. Este ano a corrida e a preparação foram perfeitas. É difícil, mas talvez ainda consiga melhorar o tempo, com um percurso mais favorável –contou sobre a prova, famosa pelo grande número de ladeiras.

Estamos falando de um ritmo de corrida que varia entre 3min07 e 3min27 por quilômetro, dependendo da distância, algo em torno de 19km/h. Uma velocidade que o coloca em meio aos profissionais do esporte, e gera visões distorcidas em quem fica para trás.Me dou muito bem com os profissionais, eles não me enxergam como uma ameaça. Se chego na frente, tendem a achar que foi um resultado isolado e não me importo com isso. Já com outros amadores de elite a coisa é mais complexa. Alguns me taxam de “profissional” como uma forma de diminuir os resultados dos mais esforçados ou talentosos – disse, se desculpando pela falta de modéstia.

Esforço e talento são palavras que o fisiologista Turíbio de Barros também usa para explicar o desempenho tão acima da média. Mesmo sem conhece-lo pessoalmente, é fácil prever que o César tenha uma bagagem genética excepcional.

- Geralmente essas pessoas tem uma enorme predominância de fibras de contração lenta (fibras vermelhas) nos músculos esqueléticos, o que permite manter uma atividade aeróbica com muito maior tolerância. Também deve ter um coração capaz de ejetar grande quantidade de sangue em cada batimento, o que proporciona um transporte de oxigênio e nutrientes compatíveis com a exigência, para manutenção de um ritmo forte.

Formado em engenharia, com pós-graduação em Gestão de Projetos na área de Tecnologia da Informação, César é casado há 14 anos e tem dois filhos, de onze e três anos. Treina seis dias por semana, uma vez por dia, sendo dois treinos de velocidade na pista, um longo na rua e três de rodagem, além de uma sessão de musculação. Segue essa rotina desde 2003, quando se juntou a uma assessoria de corrida e saiu do que chama de “período de trevas”.Durante sete anos tive uma vida profissional extremamente agitada, com muito trabalho e viagens, e não conseguia treinar. Eu era um corredor de fim de semana sonhando em voltar a correr com regularidade...Mas foi um período em que as corridas de rua cresceram muito e, mesmo com pouquíssimo treino, mantive a forma. Sempre fiz os 10km abaixo de 40 minutos – contou o corredor, que mantém o peso de 70 quilos desde os 18 anos.

A paixão por esportes vem de infância, e César se lembra de ter corrido pela primeira vez aos onze anos de idade, no litoral de São Paulo, só para acompanhar a brincadeira dos meninos mais velhos que ele. Incentivado pelos pais, praticou também futsal e basquete, mas nunca sonhou com uma vida de atleta profissional.

- Minha família sempre viu o esporte como parte essencial da educação, mas não como uma forma de ascensão econômica ou social. Meu pai prestigiava meu irmão mais velho sendo o artilheiro do campeonato de futsal, o meu irmão mais novo sendo o cestinha do campeonato de basquete, eu ganhando medalhas nas corridas, mas o que ele queria mesmo era ter filhos advogados, engenheiros ou médicos – contou, se declarando fã de um grupo especial de atletas profissionais.

São aqueles da faixa intermediária, que treinam em dois períodos, têm atenção de nutricionista, fisioterapeuta e massagista, mas vivem com salários baixos em um país que não valoriza o esportista.

- Eles são esforçados e talentosos, mas vivem com muitos sacrifícios. Particularmente, eu me espelho muito mais nessas pessoas do que nos grandes profissionais da corrida –contou justificando porque nunca teve intenção de se profissionalizar.

E foi com esses profissionais que aprendeu o que considera como as principais lições do esporte – a formação da cultura e do caráter, a convivência com o diferente, a persistência e superação de obstáculos. Para seguir sendo um amador, só que de elite.