Série mostra por que a Jamaica reina nos pódios das provas de velocidade

14/02/2016 16:05

"Talento - como surgem os campeões" viaja até a ilha caribenha e acompanha a Champs, principal torneio escolar do país que reúne mais de 3 mil estudantes.

Para os velocistas, uma prova é simples: basta correr depressa até alcançar a linha de chegada. E, então, parar. Os jamaicanos tem por hábito peitar as riquíssimas potências esportivas em provas de velocidade e garantir os espaços mais nobres e visados do atletismo. "Os jamaicanos são bons porque comem inhame e mandioca", dizem os mais desconfiados tentando sacar uma desculpa para o sucesso dos habitantes dessa pequena ilha caribenha. Mas não é bem assim. Para entender a razão de tanto sucesso, o Esporte Espetacular viajou até lá, entrevistou os grandes atletas de ontem e hoje e mergulhou nas teorias sobre a suposta genética favorável que os jamaicanos possuem.

O sucesso dos velocistas jamaicanos não vem de hoje. Em 1948, Arthur Wint e Herb Meckenley fizeram dobradinha e garantiram as primeiras medalhas em Olimpíadas. A partir de 1968, em todas as edições dos jogos, os jamaicanos ganharam pelo menos uma medalha em provas de velocidade. A geração liderada por Usain Bolt assombrou o mundo em 2008, com seis ouros. Um domínio que se repetiu na última edição, em 2012, quando os jamaicanos chegaram ao cúmulo do egoísmo: monopolizaram um pódio inteiro, o dos 200 metros, sem dar chances a mais ninguém. No total, contando com homens e mulheres, são incríveis 63 medalhas em provas que exigem pernas rápidas. Ou seja: não dá para falar em sorte. 

Errol Morrison, um dos cientistas mais respeitados da Jamaica, foi em busca de uma explicação de verdade pra tanto sucesso. Estudando os atletas, e também os livros de história, ele descobriu que explicações convincentes exigem uma viagem no tempo.

- Ao longo de séculos, recebemos escravos de tribos guerreiras, vindos da África ocidental. E eles aqui foram se misturando por muitas e muitas gerações, criando assim características marcantes do nosso povo. Temos indivíduos altos, com quadril estreito e pernas cumpridas, o que ajuda a ter passadas amplas e força no contato com o solo. Além disso, o tronco compacto contribui pra uma troca de oxigênio eficiente, que alimenta bem os músculos. E mais: se você olhar para os nossos atletas de perfil, você vai ver que a coluna deles tem uma curvatura, e essa curvatura os médicos chamam de lordose. O que isso faz? Coloca o quadril em um ângulo para  frente, ajuda a contração muscular para o atleta erguer o joelho na hora da passada. Pergunte, e todos os treinadores vão te dizer que erguer corretamente os joelhos é um dos segredos da velocidade. O que a gente vê aí é uma fotografia genética de como um corredor precisa ser - explica o cientista. 

Vilma Charton, outra cientista local, nos ensina que, na Jamaica, 98% da população tem fibras musculares rápidas, que é basicamente o tipo físico ideal para um velocista. Cockpit  County, de onde saem os maiores velocistas jamaicanos, uma região montanhosa da Jamaica, nos trouxe Usain Bolt. O homem mais rápido do mundo não acredita que a região ou a configuração genética dos jamaicanos seja o x da questão. Para ele, algo muito mais simples produz os melhores atletas do mundo: escolas. 

- Quando corremos nos torneios de estudantes levamos nós mesmos ao limite. É como ir para um campeonato Mundial. É por isso que formamos tanta gente boa. Sei que falam da genética, dos antepassados. Mas penso que o segredo de todo o nosso sucesso tem a ver com a Champs - revela o atleta. 

Champs é como é conhecido o principal campeonato escolar do país. Uma competição nacional, que reúne anualmente os melhores estudantes-atletas da nação. É um torneio com muita história. O caminho comum que une todos os grandes corredores do país. O campeonato tem 116 anos. Começou em 1910, despretensioso, com seis instituições, 50 competidores e alguns gatos-pingados na  torcida. Esses números mudaram bastante. Hoje, são 200 escolas, 3 mil alunos atletas e quase 30 mil vozes e vuvuzelas nas arquibancadas, que ajudam garotos e garotas entre 13 e 17 anos a se entregarem de corpo e alma na pista.

Atualmente, quando migram para o profissional, os atletas mais jovens tem uma boa estrutura para treinar. Antigamente, era rotina muitos migravam para os Estados Unidos. A grande questão é que eles não aguentavam o tranco e acabavam se contundindo. O ex-atleta Denis Jonhson percebeu o problema e criou um programa destinado aos atletas de velocidade, que se baseia em promover o relaxamento. Para ele, quanto mais relaxado o atleta estiver, melhor correrá. Se você notar nossos velocistas, eles estão sempre deliberadamente relaxados. Uma pessoa normal iria pedir mais treinos de musculação para termos aquele semblante de dor, rígido. Mas as pessoas que correm assim ficam para trás, terminam em quarto ou quinto. Os que vencem são aqueles que parecem correr fácil - explica