Veterana do salto, Murer continua em alto nível e esquece passado por 2016

26/03/2015 10:08

A 499 dias dos Jogos, atleta lembra trajetória e diz ter boas lembranças do Rio. Experiente, campeã mundial confia no plano do país de ser top 10 nas Olimpíadas.

 

Há 18 anos, Fabiana Murer era apenas uma adolescente que decidiu trocar a ginástica artística pelo salto com vara. Ela usava um equipamento feito de bambu e caia sobre a areia. Mas não sabia que aquela decisão abrira, anos depois, o caminho para novas gerações brasileiras em uma prova, até então, com pouco espaço no cenário esportivo do país. Aos 34, olha para trás com a sensação de dever cumprido. Hoje, se sente veterana, mas antes do adeus, no ano que vem, terá uma nova chance de buscar a medalha olímpica. A 499 dias dos Jogos do Rio de Janeiro, a campeã mundial do salto com vara em 2011 não é do tipo que fica olhando por cima dos ombros. O que não deu certo no passado serve de motivação para o que ainda pode vir. É o que ela garante. 

- Sempre tento esquecer essas coisas que passaram (Olimpíadas de 2008 e de 2012, quando não chegou nas finais) Lógico, aprender com os problemas que tive, com erros. Tem que pensar para a frente. Acho que não dá para a gente ficar parado no passado. É difícil, tem que aprender a digerir tudo isso para poder ir para frente. Mas estou bem tranquila com tudo que aconteceu, mais experiente. Acho que tudo que eu passei me ajudou a ser a atleta que sou hoje, a pessoa que sou hoje. Lógico, queria que tivesse sido melhor do que foi. Mas não tenho do que reclamar, acho que tudo isso me motivou a continuar treinando, a buscar meus resultados e estar nas Olimpíadas do Rio - disse a atleta.A experiência é a chave neste momento importante da carreira. Fabiana lembra como estava em 2007 e 2011, anos que antecederam suas duas participações olímpicas. Ela se diz tranquila e adaptada ao novo momento em mais um ano pré-Jogos. 

- Me sinto muito mais experiente. Em 2011, tinha sido campeã do mundo (Mundial de Daegu), era uma fase que estava em crescimento, conquistando meu espaço ali no circuito internacional entre as melhores do mundo. Agora não, já estou estabilizada, já conheço essas atletas que estão no circuito. Temos novas vindo, outras da minha geração já pararam ou estão parando. Então, é um momento bem diferente da minha carreira. Me vejo bem mais tranquila para encarar treinos, as competições. Meus treinos até já mudaram um pouquinho mesmo, até por conta da idade. Tenho que pensar um pouco mais no que fazer, poupar um pouco mais o meu corpo. Ter um foco maior na qualidade, não tanto na quantidade. Está sendo bem pensando para evitar lesões e eu estar bem saudável para continuar saltando alto.

Na data que marca a contagem especial de 500 dias para os Jogos de 2016, Fabiana está justamente no Rio de Janeiro, onde participou, nesta segunda-feira, de uma corrida na Lagoa Rodrigo de Freitas, promovida pela marca que a patrocina. Ela diz que gosta de correr em paisagens. No período que pôde observar a cidade, conta ter percebido as mudanças e o clima por conta das Olimpíadas. As memórias da cidade-sede também são as melhores possíveis. Está com cara de que vai acontecer um grande evento na cidade. Vejo bastante obras. Estive em Londres um ano antes das Olimpíadas e também estava da mesma forma. Essa correria, com obras para as coisas acontecerem e serem Jogos Olímpicos que todo mundo aproveite e goste. Tenho boas memórias do Engenhão. Fui campeã pan-americana lá em 2007, em 2009 bati recorde sul-americano. Gosto muito de competir lá - conta.

No ano que vem, Fabiana Murer vai estar com 35 anos. Já decidiu que as Olimpíadas do Rio vão marcar sua despedida do esporte. Ainda não decidiu exatamente o que vai fazer quando deixar a pista do Engenhão no dia do encerramento de sua carreira. A ideia, por ora, seria tirar um ano para fazer um curso e escolher o novo rumo com calma. Desde 2006, a brasileira vem conquistando resultados importantes, estando sempre entre as seis melhores do mundo no ranking. Assim, reconhece o rótulo de veterana sem problemas.Já me sinto uma veterana no circuito. Sou a mais velha do circuito. Tinha até uma polonesa de 34 anos que se aposentou esse ano. Pensei: ''Nossa, agora realmente sou a mais velha''. Não tem ninguém para dividir comigo (risos). Mas é legal. Vejo atletas novas crescendo e fico contente de ter conseguido passar por tudo isso me mantendo entre as melhores do mundo. É mais fácil alcançar bom resultado do que manter - diz. 

Um caminho importante acabou sendo aberto por Fabiana. Hoje, o Brasil tem outros atletas do salto com vara no circuito internacional, e ela reconhece que pôde fazer parte desse momento de transição. Sobre reconhecimento, ela sente que de certa forma conseguiu alcança-lo.

- Lógico que as pessoas cobram muito. O atleta tem seus altos e baixos durante os anos, durante a carreira. Vejo as pessoas reconhecendo bastante o que eu fiz. Dão valor. Fico contente quando as pessoas me procuram para dar parabéns ou tirar uma foto. Isso quer dizer que eles estão acompanhando meu trabalho, os meus resultados. Sei que ajudei muito o salto com vara a crescer e a desenvolver outros atletas que estão começando agora. Até mais novos que o Thiago (Braz) e o Augusto (Dutra). Estão começando treinos de uma forma diferente. Não é como quando eu comecei, que não tinha material. Não tinha muito conhecimento sobre técnica, treinamento. Hoje em dia, não. O caminho está um pouquinho, só um pouquinho, mais fácil. Porque nunca é fácil (risos).

Meta de o Brasil de estar no top 10 
Fabiana Murer vê com bons olhos e julga como alcançável a meta ambiciosa do Comitê Olímpico do Brasil (COB) para 2016. A expectativa criada é de que o país consiga entrar pela primeira vez no top 10 do quadro de medalhas nos Jogos Olímpicos. 

-  Acho que é possível. A gente está tendo investimento para isso. Com relação a viagem, campings de competição, de treinamento, material... Acho que os atletas estão tendo esse suporte. E o fator casa também ajuda a crescer, ter uma motivação maior. Além de ter a torcida a favor. Acho que a maioria dos atletas crescem com isso. Acho difícil falar se um atleta vai ganhar uma medalha ou não, uma medalha em Olimpíadas é uma cosia muito difícil. Todos os atletas que estão nas Olimpíadas querem uma medalha, então realmente não é fácil. Os brasileiros vão fazer seu melhor.Outro fator importante para a atleta é o legado que o esporte olímpico poderá ter acesso com os Jogos realizados no Brasil. O investimento maior já pôde ser notado desde o começo do ciclo. Inclusive no atletismo, onde ela aponta aumento também nos campings de treinamento e o surgimento de novos talentos. 

- A gente está tendo muito investimento, espero que isso continue depois. A gente vê que ainda têm poucas empresas que investem no esporte, que têm paciência de saber que o atleta não é feito de uma hora para outra, que é a longo prazo. Espero que com as Olimpíadas aqui essa mentalidade mude. Que mais pessoas queiram investir no esporte, que é importante para a vida. Acho que todo mundo que faz, pratica esporte, se torna uma pessoa diferente. Só da população ter esse contato, com atletas de ponta, com as Olimpíadas, o Rio vai ser uma cidade diferente. 

Bom começo de temporada
Neste começo de ano, Fabiana Murer teve uma boa temporada indoor. Além de bater o recorde sul-americano na pista coberta (saltando 4,83m), conquistou medalhas em meetings internacionais. Agora, o gás está todo voltado para a pista aberta (outdoor). Ela participará de algumas etapas da Diamond League também como preparação para os principais objetivos neste ano: os Jogos Pan-Americanos de Toronto, em julho, e o Mundial de Atletismo de Pequim, em agosto. Agora estou treinando forte para a preparação das competições de pista aberta. A minha primeira competição é o Troféu Brasil, em maio. Até lá vou estar treinando forte, pesado. São cinco ou seis horas de treino por dia, que envolve corrida, musculação e a parte técnica do salto. 

Em agosto, no Mundial, Fabiana vai voltar ao estádio olímpico Ninho de Pássaro, onde em 2008, viveu momentos ruins com o sumiço de suas varas na disputa olímpica. Isso acabou a prejudicando. Sobre o retorno, ela minimiza a questão e diz que o ocorrido já ficou para trás. Nos Jogos de 2012, Murer foi atrapalhada por um vento inconstante. 

- Eu volto sem problema. É outra competição, não é Jogos Olímpicos, é Mundial. São coisas diferentes. Volto sem problema nenhum. Todas as competições que vou são assim. O organizador transporta as varas. Hoje em dia fico um pouco mais atenta pelo que aconteceu em Pequim. Mas ao mesmo tempo não posso ficar neurótica - finaliza.