Ultramaratonista ganha apoio de Bernardinho para correr 24h em SP

03/09/2013 16:55

Carlos Dias conta com parceria do técnico no fim do 'Desafio das Capitais', já foram percorridos 2.840km e crianças com câncer recebem colaboração

 

As passadas firmes dão ritmo a uma leve corrida. A concentração é grande. Desta forma, o paulista Carlos Dias vai longe, misturando superação e solidariedade por todos os cantos do Brasil. Depois de 2.840 km percorridos em 26 capitais em 26 semanas seguidas, o ultramaratonista se prepara para a última etapa do “Desafio das Capitais”, que acontece neste fim de semana (começa sábado e termina domingo), em São Paulo, quando vai correr por 24 horas e celebrar 20 anos de carreira.

Para chegar com força total e ânimo renovado na prova de encerramento, ele deu uma rápida passada no Rio, na última terça-feira, para trocar experiências com Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei masculino e do time feminino do Rio de Janeiro, um de seus maiores ídolos. O encontro aconteceu no Leblon, Zona Sul da cidade, na academia de ginástica da qual o treinador é sócio, e durou cerca de duas horas.

 

O Bernardinho é um grande campeão e é movido por desafios, assim como eu. A maior paixão dele é sempre buscar a excelência. Ele sempre demonstra que tem algo a mais para buscar. Eu admiro muito isso no trabalho dele. Quando eu lanço um projeto desses, tento  buscar algo além da dificuldade, aquela virgulazinha a mais de entrega, doação, entusiasmo e fé. O Bernardinho passa isso, vem da alma. Por isso fiz esse bate-papo com ele. Falamos de como podemos transformar o nosso cenário e o das pessoas que estão ao nosso redor através do esporte. Ou seja, colocar um significado maior sobre a atividade que estamos realizando – afirmou Carlos.

Apoio às crianças e adolescentes com câncer

Correr por 24 horas soa absurdo para muitas pessoas. Cumprir essa atividade todos os fins de semana em todas as capitais brasileiras, de março a setembro, causa ainda mais espanto. Mas o desafio tem uma causa nobre para Carlos Dias: colaborar com o hospital do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, o GRAAC. Se uma das metas do esporte é superar limites, o ultramaratonista de 40 anos leva a atividade física para muito além da mera disputa, criando verdadeiros laços de amizade por onde passa.

 

Ele viaja sozinho para todas as capitais brasileiras e conta com o apoio de amigos, conhecidos e, principalmente, apoiadores locais para montar uma estrutura básica para a realização do projeto. Quem quer acompanhá-lo paga uma taxa de R$ 50 e recebe o kit promocional do desafio (uma camiseta, uma medalha e um certificado de participação). Desse valor, R$ 10 são destinados às crianças em tratamento. Neste sábado será a vez de Bernardinho abrir as portas de sua academia em um shopping de São Paulo para receber a última prova e apoiar a causa do paulista, que resolveu ganhar a vida com os próprios pés.

- O maior objetivo, além de convidar as pessoas para sair do sofá, vir correr comigo e expandir seus limites, é abraçar o combate ao câncer infantil. No domingo será o gran finale, como as pessoas falam. Depois de 26 semanas e 26 capitais, vou voltar para casa, rever meu filho, estar com meus amigos de infância, toda a família... E alguns atletas que correram comigo em diversas capitais vão para São Paulo para celebrar este momento incrível da minha carreira. Às véspera do encerramento, vivo um momento de muita alegria porque chego para a última etapa sem nenhum tipo de lesão e muito honrado de ter o Bernardinho como parceiro. Uma pessoa que eu sempre torci e me emocionei junto pela televisão – disse o ultramaratonista.

... minha mãe (...) era faxineira de uma empresa e não sabia ler e escrever. Certa vez, ela ousou sonhar em ver os três filhos (...) na faculdade. Trabalhou mais de 15 horas por dia e conseguiu (...). Eu considero a minha mãe a maior atleta que eu conheci na vida"

Carlos Dias

Apaixonado por esporte e engajado em causas sociais, Bernardinho fez coro pela iniciativa do atleta e falou do desafio como fonte de inspiração.

- A trajetória do Carlos é de superação. É uma luta permanente. Ficou muito feliz em participar, ajudar e apoiar esse projeto. Eu acredito no esporte como uma ferramenta de transformação social, pessoal e da alma. Poder estar junto é uma honra, um prazer. Já participei de várias campanhas para várias instituições, mas essa é muito legal. O Brasil ainda tem muitos desses personagens que não são tão conhecidos. O Carlos é hoje um dos nossos grandes nomes nessa área de desafio extremo, de aventura e superação, mas precisa ser mais reverenciado e conhecido pelo nosso povo.

Inspiração

A experiência do ultramaratonista também conta na hora de realizar façanhas como essa. Formado em administração, ele corre provas de longa distância há 16 anos e usa o esporte para passar mensagens de estímulo para as pessoas. Natural de São Bernardo do Campo, em São Paulo, vive de ministrar palestras e organizar corridas, buscando novos desafios. Carlos já percorreu os extremos do país numa prova de nove mil km do Oiapoque ao Chuí, em 2007, e deu outra "volta" em 2010, somando 18.250km em 305 dias. Segundo ele, a inspiração para superar provas desta magnitude vem de casa.

- Na minha rua, em São Bernardo, as pessoas me chamavam de louco. Depois de 20 anos, as pessoas continuam me chamando de louco. Mas de uma forma diferente: um louco realizado, que foi para a Antártida, para o Nepal, que cruzou o Saara e foi eleito um "super humano" por um canal de TV a cabo. Uma coisa que eu aprendi nesses anos de carreira foi que para buscar o conforto temos que sair da zona de conforto. Você não pode ficar esperando a vida te premiar. Eu aprendi que tenho que me doar mais do que 100% para ter o resultado. Isso vem do exemplo da minha mãe. Eu perdi meu pai com dois anos. Na época, ela era faxineira de uma empresa e não sabia ler e escrever. Certa vez, ela ousou sonhar em ver os três filhos,  eu e duas irmãs, na faculdade. Trabalhou mais de 15 horas por dia e conseguiu colocar os três filhos na universidade. Eu considero a minha mãe a maior atleta que eu conheci na vida.

Carlos Dias participa da etapa do Copa do Mundo, no Deserto de Gobi, na China (Foto: Arquivo Pessoal)

Na opinião do técnico de vôlei, Carlos Dias não conseguiria obter tantos resultados positivos se não houvesse um grande motivo para impulsioná-lo. Para Bernardinho, o atleta é um verdadeiro herói.

- Se não tivesse uma coisa por trás disso tudo, eu acho que ele não conseguiria correr 24 horas. E pior ainda: 24 horas por 27 vezes. Ele é um super humano. Quero dizer o seguinte: quando há uma causa para empurrar, você descobre forças que às vezes não sabia que tinha ou desconhecia. Acho que ele já demonstrou isso muitas vezes nesses 20 anos de carreira. E certamente completará esse projeto com brilhantismo. Eu e minha academia estaremos sempre de portas abertas esperando por ele. Torço para que ele encontre forças e realize com perfeição essa última etapa.

Distância do filho é a maior dificuldade

Perto de concluir o projeto com êxito, Carlos se preparou física e psicologicamente durante oito meses. Ele treinou cerca de cinco horas diárias, cinco dias por semana. A preparação exigiu prática de corrida, trabalho de fortalecimento, equilíbrio e força dos músculos, além de sessões de quiropraxia, respiração, meditação, alongamentos, consciência corporal e uma alimentação balanceada. A dois dias do fim do “Desafio das Capitais”, o ultramaratonista já sente alguns incômodos provocados pelo desgaste físico, mas garante que nada está sendo tão difícil nesses seis meses de competição quanto ficar longe de seu filho.

 

- Eu acho que ficar longe do Vinícius, que tem 6 aninhos, foi a parte mais complicada nisso tudo. O restante a gente sabe trabalhar, a mente da gente está preparada para isso. Quando eu estou em São Paulo, eu normalmente o vejo a cada 15 dias porque não sou casado. Ele é muito apegado a mim, a gente brinca muito... É lógico que a tecnologia a ajuda muito, o Skype, por exemplo. Mas não é a mesma coisa que estar abraçando, cheirando... Agora, nesse meu retorno para São Paulo, teremos tempo para matar a saudade. A expectativa é grande. Infelizmente nós fazemos algumas escolhas na vida que nos abdicam tantas outras coisas. No meu caso, por exemplo, é ficar longe da família. Mas o Vinícius sabe que eu estou sempre correndo por ele, buscando passar uma mensagem positiva.

 

Aos 40 anos, Carlos coleciona provas inesquecíveis, muitos amigos, derrotas e vitórias. Agora, com mais uma ultramaratona chegando ao fim, ele espera uma grande festa em São Paulo para comemorar duas décadas de carreira e conta um capítulo que jamais será esquecido por ele.

-  Hoje, muitas pessoas me olham de forma diferente. Na última segunda-feira, tive um exemplo em Belo Horizonte de um atleta que correu as 24 horas. Ele falou que ter corrido comigo foi a coisa mais fascinante da vida dele e que nunca imaginava que ia conseguir completá-la. Ele tinha ido só para correr 10km. Agora, ele vai agora para São Paulo correr essa última etapa e comemorar comigo meus 20 anos de carreira. Ele disse ainda que pretende tatuar o símbolo do “Desafio das Capitais” na panturrilha porque foi a coisa mais marcante da vida dele. Ouvir isso de uma pessoa é um prêmio para mim. Isso resume todo o esforço que eu venho tendo durante todos esses anos de carreira – concluiu.

 


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